SOBRE ALGUMAS OBJEÇÕES DA RECONTEXTUALIZAÇÃO BÍBLICA


A ênfase na "recontextualização" da Bíblia - teologia da liberta­ção, comunidades eclesiais de base, cristãos comprometidos na trans­formação social, etc. - suscita algumas objeções. Assinalamos:


a)   Poderia parecer que a leitura da Bíblia se torna subjetiva; pou­co fundamentada na própria Bíblia, para valer-me de um paradoxo. Cremos que acontece justamente o contrário. A acusação de subjeti­vidade lançada contra a hermenêutica bíblica valeria então para toda a teologia, uma vez que não existe teologia alguma que seja "objeti­va". Nem a exegese acadêmica pode sê-lo.
Como vimos, o "desvio pela semiótica" assinala que a hermenêutica dos textos está condicionada pelos próprios textos. Efetivamente, o texto indica o limite (por mais amplo que seja) do sentido. Polissemia do texto não significa uma coisa qualquer. Um texto diz o que permi­te dizer. A sua polissemia surge de sua clausura prévia. A partir disto, é preciso situá-lo em seu próprio contexto por meio dos métodos his­tórico-críticos e explorar sua capacidade de produzir sentido (leis da semiótica) para, assim, a partir da vida, fazer aflorar o seu "adiante".
b)   Costuma-se também acusar a teologia comprometida, e em es­pecial a latino-americana, de usar mais o Antigo do que o Novo Tes­tamento. Em primeiro lugar, toda a Bíblia é palavra de Deus e, por­tanto, existe o direito de se usar o Antigo Testamento tanto quanto se queira. Segundo, a Bíblia é um texto que destaca a continuidade de um projeto soteriológico, o qual passa por determinados eixos nar­rativos e querigmáticos. Terceiro, o Antigo Testamento contém uma teologia narrativa mais extensa, proporcionando numerosos exemplos de eventos históricos vistos à luz do acontecimento fundante do êxo­do. Quarto, ninguém pode negar que a Bíblia é um livro sumamente variado e rico, no qual se encontram muitas correntes teológicas. Daí a importância de assimilá-lo como um grande relato (veja acima, em II.3).
Por outro lado, há um princípio hermenêutico que se deduz da análise feita, a saber, que o querigma que é relido e aprofundado não se perde, mas pode sempre de novo ser retomado. Se o Antigo Testamento é relido no Novo, isto não significa que deve ser anula­do ou colocado de lado. Essa fecundação hermenêutica motiva ainda mais a recuperação do seu sentido inesgotável.
Além disso, é necessário também recordar que algumas leituras do evento crítico recolhidas no próprio Novo Testamento deixam obscuros importantes aspectos querigmáticos do Antigo: Destaca, por exemplo, muito mais o pecado individual do que as estruturas sociais (caso dos profetas de Israel), a escatologização do Reino (não em Lucas!) parece relativizar a luta por uma ordem neste mun­do. Paulo contempla a escravidão a partir de um plano tão elevado que não afeta em nada a realidade concreta do escravo (1 Co. 7.20-24; 1 Tm. 6.15), e exclui as mulheres do direito de fazer uso da palavra nas assembléias eclesiais (1 Co. 14.33b-35, compare com 11.2-15). Recomenda aos cristãos de Roma a obediência à autoridade (do impé­rio opressor daquela época) (Rm. 13.1ss).
Cada texto é, na intenção de seu autor, uma clausura de sentido. Além disso, sua mensagem é contextual e "conjuntural". Em sua transmissão, no entanto, morre o autor e emerge sua polissemia. Isto traz um risco e uma vantagem: o risco está na própria "descontextualização" que acontece na poste­rior releitura do texto. Tomemos o caso de 1 Co 14.33b-45: ao escre­ver a uma igreja grega, é possível que Paulo tivesse considerado opor­tuno não negar de imediato uma práxis cultural, baseada, sem dúvi­da, na cosmovisão órfico-platônica que idealiza o homem e despreza a mulher. A universalização descontextualizada do texto eleva à cate­goria de "doutrina" o que pode ter sido uma mera indicação circunstancial. Isso salvaria Paulo, porém não o texto! E nós não lemos Pau­lo, mas o texto por ele escrito!
E qual seria a vantagem de passar do autor ao texto? Recordemos que, a nível lingüístico, este relato está dentro de outro relato, a Bí­blia como totalidade (relembremos o conceito de intratextualidade). Neste único texto, outra afirmação paulina (Gl. 3.28s "... nem homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus") esta­belece um princípio mais radical que encampa a anterior e remonta ao Antigo Testamento (Gênesis 1.26, e cf. Efésios 5.31s). Na recir­culação que se estabelece nesta intratextualidade (se já não na pró­pria intertextualidade) da Bíblia, o Antigo Testamento não esgotou seu sentido precisamente porque se o relê através do prisma cristoló­gico. Não pode haver, portanto, nenhum abuso do Antigo Testamento.

Conclusão


A Bíblia é nossa "palavra de Deus". É o recolhimento do sentido das ações salvíficas de Deus. Não é somente um texto para ler. É tam­bém uma palavra proclamada que reinterpreta a vida. Vimos que se o acontecimento se faz "palavra", e esta desemboca em um "texto", o texto, por sua vez, reclama uma nova palavra que o releia. Há, por­tanto, uma rotação seqüencial em que a palavra engendra o texto e o texto a palavra.
Essa relação se dá também entre a Escritura como to­talidade e a palavra que proclama o querigma: a Escritura foi antes proclamação e também o é depois. Cristo também é a Palavra que as Escrituras interpretam; mas, por sua vez, é interpretado em novos textos que formam o Novo Testamento. Chega-se, aí, a uma nova Es­critura que, outra vez, descende à proclamação. Em suma, a Escritu­ra se faz Palavra, a Palavra se faz Escritura. Não se pode nunca termi­nar esse movimento, porque atrás dele está a presença de Deus na vi­da. Deus de vivos e não de mortos (Mt. 22.32). 

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