REVELAÇÃO TERMINADA OU ABERTA?


O leitor talvez já terá se perguntado se tudo isso não significa "reacrescentar" ou "retirar" algo da palavra de Deus. É claro que neste ponto tropeçamos com o teologúmeno da revelação concluída e en­cerrada com Cristo, com o último apóstolo e com o último livro do Novo Testamento, segundo as várias versões desse conceito.

Antes de tudo, estas três possibilidades não são sinônimas. A primeira (a reve­lação concluída em Cristo) indica algo qualitativo, a segunda, um es­paço temporal, a terceira, um limite textual e lingüístico. Porém, explicam-se mutuamente: Cristo é o ápice da revelação, mas o texto ca­nônico que culmina no Apocalipse recolhe a experiência pós-pascal e apostólica da comunidade cristã primitiva. A revelação tem, então, uma duração limitada na vida de Israel, durante a vida dos apóstolos: testemunhos da atuação, morte e ressurreição de Jesus.
Tudo isto es­tá correto, contudo não satisfaz. Cristo é o ponto culminante, o mais alto, da manifestação de Deus na história da salvação. No entanto, Deus não se manifestou antes (e antes de Israel!) e não se manifesta depois de Cristo? Ou "revelar-se" significa somente dizer palavras? O problema começa por aí e tem sua explicação que não é menos do que "hermenêutica", a saber, que o acontecimento é recolhido na pa­lavra-relato e esta é posta em circulação como mensagem ou sentido do acontecimento primeiro, logo como sentido ou mensagem em for­ma de linguagem (mensage "lenguágico"). Esse fenômeno, já estuda­do, é muito significativo e é a matriz do processo hermenêutico. O acontecimento tem "sentido" enquanto é interpretado. Depois, o transporte do sentido é um texto (oral ou escrito, e finalmente escrito). Isto até que o texto, por uma opção hermenêutica, é assu­mido como "cânon" que enclausura outras tradições. Em uma derivação degenerada, o cânon pretende inutilmente enclausurar sua própria releitura: quando se o considera como "depósito" da revelação .[1]
Assim como um acontecimento pode converter-se em "fundante" à luz de seus efeitos históricos, também um texto se faz normativa e arquetípico dentro de uma comunidade que já vive em sua atmosfera. O cânon muda somente quando o conflito das interpretações chega a um grau tal que se produz a divisão. Os novos grupos necessitam en­tão recompor ou reafirmar um texto de referência, um "cânon de Es­crituras", se se trata de área religiosa. Por isso, o fato, afirmado pela fé, de que a Bíblia é nosso texto paradigmático como palavra de Deus é tremendamente significativo. Não nos fazem falta novos li­vros que pudessem ser adicionados à Bíblia e, por outro lado, as práticas cristãs estão definitivamente orientadas pela prática de Je­sus e por seus ensinamentos (interpretadas, logicamente, em um texto canônico).
Aqui, porém, não acaba tudo. Acabe talvez um desenvolvimento, hermenêutico. Um dos "eixos semânticos" da Bíblia é, precisamente que Deus se revela antes de tudo nos acontecimentos da história dos homens. Essa presença é captada pela fé e a cria simultaneamente, enquanto que inicialmente (como nos relata a Bíblia) é um "reconhe­cimento" da presença de Deus nos acontecimentos humanos. A fé co­mo adesão a uma palavra ou a uma pessoa é um "depois" hermenêu­tico. Muito bem, tudo aquilo do acontecimento recolhido na pala­vra - ponto chave da hermenêutica, sobretudo bíblica - tem a ver com essa fé "reconhecimento" de Deus. Antes do que na palavra, Deus se manifesta no evento salvífico e em suas conseqüências ou "efeitos históricos" que prolongam essa mesma epifania. Que a reve­lação de Deus seja expressa em uma palavra ou em um texto é tam­bém um "depois". Inclusive a palavra bíblica da "promessa" está neste momento mediada por um texto que a orienta ao evento do êxo­do, o qual supõe como experimentado e do qual já é uma forma de releitura. Paradoxalmente, a promessa - enquanto texto atual - é teologicamente elaborada a partir do evento que anuncia! Os relatos de vocação profética (veja Amós 7.10-17; Is. 6; Jr. 1; Ez. 1-3) são pos­teriores à atuação do respectivo profeta. Repetimos: posterior é o re­lato, não a vocação mesma. Aquele é uma releitura da mensagem do profeta, segundo a tradição que o transmite.
Voltamos à questão do limite da revelação. Quando um profeta de Israel fala em nome de Deus (e menciona sua "palavra"), na reali­dade o está "lendo" ou escutando na vida de seu povo, em sua infide­lidade ou no seu sofrimento, codificados como juízo ou como pro­messa de salvação. Deus está no acontecimento e o profeta elabora "em palavra" essa presença divina na vida.
E, se o "Verbo se fez carne" (Jo. 1 .14), isso também não significa uma negação de todo intento de enclausurar a palavra de Deus na To­ra, ou seja, na Lei? Como reflexo e expressão múltipla da revelação de Deus na história, a Tora chegou a ser negada como sentido ao ser totalizada como palavra autônoma, fechada, impermeável a novas manifestações de Deus que modificam suas leituras já fixadas (apa­rentemente!) pela tradição. Cristo foi o acontecimento novo de Deus que impôs uma releitura da Tora.
 Incapazes de "reconhecer" a esse Deus nas palavras de Jesus, muitos judeus de seu tempo surpreenden­temente tornaram-se "desconhecedores" dele. "Se me (re)conhecesseis a mim, também conheceríeis a meu Pai" (Jo. 8.19); "E quem me vê a mim, vê aquele que me enviou" (Jo. 12.45, cf. 14.7). Chama bas­tante a atenção o fato de que Jesus pôde dizer - no relato joanino ­que os "teólogos", os conhecedores de Deus naquele momento, subi­tamente converteram-se em seus "desconhecedores".
Com efeito, Deus se revela no Jesus histórico. Cabia à fé identificá-lo ali. Mas é fé essa clausura de Deus na Tora? Deus está em um texto ou na vida? Con­flito hermenêutico por um lado, mas reducionismo da revelação por outro. Tal foi o drama dos judeus que deixaram "passar" o aconteci­mento de Deus em Jesus sem captá-lo e, a partir dele, reler as Escritu­ras transmitidas como "palavra" desse Deus.
Esse ciclo se repete na história da Igreja. O teologúmeno da reve­lação "terminada", com todas as suas boas intenções e toda a verdade que contém como expressão simbólica, produz um curto-circuito no processo da própria revelação: Deus/ palavra, em vez de Deus/acontecimento/palavra.
Ficamos somente com uma palavra que "ilumina" os eventos humanos, as vicissitudes dos povos? Não está Deus dizen­do nada de novo nas lutas dos oprimidos, nos processos de libertação, na contribuição das ciências humanas para o conhecimento do ho­mem e seus problemas, da realidade e suas estruturas opressivas, das possibilidades criativas do homem, nos impulsos por construir um ho­mem novo em uma nova sociedade? Não se trata apenas de uma novi­dade na ordem do conhecimento da revelação já realizada, nem so­mente de que Deus se manifesta com modalidades inéditas e não ex­perimentadas antes (pelo aprofundamento em sua primeira revelação: nível do conhecimento, em última instância, de uma gnose humana), mas sim e sobretudo de que se revela nos acontecimentos.
Se é assim, então a referida epifania de Deus deve gerar um pro­cesso hermenêutico que produzirá sua palavra: o discurso da fé em todas as suas modalidades (oração, "credos", proclamação, teologia), uma nova palavra, na verdade. Não simplesmente uma iluminação da história presente com a luz projetada a partir de trás (o texto bíbli­co), mas a captação do rosto de Deus que se delineia na história dos homens. A própria Bíblia nos orienta para a leitura de Deus nos acon­tecimentos do mundo e nos ensina justamente a reconhecê-lo como se manifesta agora e não como repetição do passado. A história hu­mana é uma novidade constante e a presença de Deus, que a acompa­nha, também o é.
Cristo, como acontecimento central e máximo da história, é um acontecimento inacabado. A apocalíptica cristã o espe­ra uma segunda vez para "fechar" esta história. A crítica judaica, diri­gida a nós cristãos que reconhecemos em Jesus o Messias e Salvador, de que o mundo segue da mesma forma, então, baseia-se naquela con­cepção, segundo a qual Cristo é o telos da revelação e da ação salvífi­ca de Deus. Tudo está dito e tudo está feito, só que na história subse­qüente se explicita e aprofunda o dito e se produzem os efeitos do feito.
Não está mais de acordo com o Novo Testamento afirmar que com Cristo começa a escatologia e a nova ordem, que ele é uma cha­ve hermenêutica para descobrir Deus na nossa história? Cristo mes­mo, que é a Palavra do Pai (Jo. 1.18 diz magnificamente a respeito do Logos = Palavra que o Pai revelou =exegésato), não disse tudo. Deixou seu Espírito para que nos ensinasse (Jo. 14.26) e nos conduzisse à verdade plena (Jo. 16.13 hodegései humas en te alethéia pase). A Bíblia é a leitura da fé dos eventos paradigmáticos da história salvífi­ca, a leitura paradigmática de uma história de salvação que ainda não terminou.
A Bíblia, como mensagem paradigmática e normativa, não exclui sua própria releitura à luz de novos acontecimentos. Se não tem sentido (porque se opõe à própria mensagem bíblica) enclausurar a revelação de Deus na história passada, tampouco o tem converter a Bíblia em um "depósito" fechado, do qual somente é possível "tirar" coisas. Como texto normativo, canônico, da mensagem salvífica de Deus, e precisamente por ser normativo, incorpora - por sua releitu­ra - o sentido novo dos novos acontecimentos da história.
Interpre­tar, na verdade, é acumular sentido. Exegese é eisegese, é "entrar" no texto bíblico com uma carga de sentido que recria o primeiro sentido justamente porque é posto em sintonia com ele, seja pelo continuum de uma práxis de fé (nível do "efeito histórico") seja pelo continuum das sucessivas releituras (nível da tradição hermenêutica).
Este caráter decisivo do acontecimento - a história - como lugar primeiro da revelação de Deus ontem e hoje coloca em relevo a fragi­lidade e parcialidade de uma teologia fundamentada somente na(s) fonte(s) transmitida(s) da revelação. Seja o "sola Scriptura", ou acompanhado da Tradição, não há muita diferença. Se a tradição fos­se viva, coincidiria com o que chamamos a revelação presente de Deus na história. A visão católica da Tradição, no entanto, de aconte­cimento converte-se em um texto (os Pais da Igreja, a liturgia, etc.), que prolonga um pouco mais a revelação bíblica, mas que se enclau­sura em algum momento e é controlada por uma autoridade magiste­rial. Desde então estamos novamente em uma "teologia das fontes", que epistemologicamente, não se diferencia da "teologia da Tora" ra­bínica, na medida em que canaliza toda a revelação de Deus por ca­nais já ocupados, fechados e colocados em "depósito".
Quão difícil é o caminho de uma "teologia aberta"! Por isso uma teologia como a lati­no-americana resulta conflitiva. O mesmo acontece com o novo falar sobre Deus (=teologia) que surge da práxis da fé entre os cristãos comprometidos. Um magistério eclesiástico (no catolicismo) ou uma tradição confessional (no protestantismo) somente têm sua razão de ser enquanto unificam e enclausuram momentaneamente o sentido de uma tradição e de uma práxis, mas, simultaneamente, à luz dessa alternância entre práxis e texto que constitui o processo hermenêutico, permitir passar a uma nova abertura. A clausura total de uma lei­tura do querigma, ou seu controle puramente autoritário, não é bíbli­co nem hermenêutico.


[1] Poderia se objetar que a idéia de um "depósito" da fé seja bíblica (I Tm. 6.20; II Tm. 1.14). Porém, o texto destas epístolas intenta precisamente uma "clausura" da doutrina frente a outros grupos, e não se refere à Bíblia já constituída. Seu contexto é específico. Por outro lado, pode-se também pres­cindir do termo "depósito" e usar o grego paratheke. Cf. El Libro del Pueblo de Dios. La Biblia (Ed.Paulinas, Madrid-Buenos Aires, 1980): "Conserva o bem que te foi confiado" (I Tm. 6.20); "conserva o que se te confiou" (II Tm. 1.14, neste caso a tradução é mais difusa, mas evita, talvez, o vocábulo "depósito")

Nenhum comentário: