É importante assinalar
que a revelação de Deus no acontecimento, e não somente na palavra transmitida,
ajuda a compreender mais profundamente a própria tradição bíblica. A linguagem
desta participa das características de toda linguagem religiosa e, por isso,
mediante símbolos literários e códigos narrativos, expressa o sentido
que a fé descobre nos acontecimentos humanos, os quais, à primeira
vista, não têm nada de extraordinário. O acontecimento da libertação da
escravidão egípcia foi o mesmo, tanto para os egípcios como para os hebreus, e
pode também ter acontecido entre escravos cananeus ou líbios dessa mesma época.
Em contraposição, a representação do evento, assim como a
"passagem do mar" ou outros relatos que o anunciam e descrevem,
constitui parte da "palavra-do-acontecimento", a palavra que
"diz", afirma uma presença do Deus que atua na história,
concretamente nesse processo de libertação.
Essa reflexão tem três conseqüências que saltam
aos olhos:
a)
O acontecimento salvífico fica melhor "centrado": é a experiência
da libertação, não a passagem do mar nem as pragas. Estas representações não repetem o
evento, interpretam-no.
b) Valoriza-se o texto
ou relato que interpreta e amplia as dimensões querigmáticas e teológicas
daquele evento de libertação: uma vez que este é "lido" em uma
"palavra", ele se integra nela; seus "efeitos históricos"
(as práticas que gera), por sua vez, também o serão numa seqüência dialética e
criadora-de-sentido (parte II). O texto, então, é portador da mensagem porque
está constantemente incorporando as leituras de si mesmo que são exigidas
pelas práticas e pelos trabalhos da fé, que sempre de novo vai descobrindo
Deus na história.
c) É necessário enfatizar
que a fé é decisiva para formular e confessar a presença de Deus nos
eventos humanos. Pensar que ele deve manifestar-se com milagres e fenômenos
extraordinários, como nos conta o relato do êxodo ou outros, é cair numa
ingenuidade própria de quem ignora como se instaura o discurso religioso. Este
é um "depois" do acontecimento. É leitura do acontecimento. Acaso a
libertação da Nicarágua ou dos povos africanos, na atualidade, não são eventos
salvíficos e, a partir de uma ótica cristã, manifestações de Deus?
Afirmar que são eventos políticos humanos (o que certamente o são), e fazer
disso uma afirmação teológica (que Deus não se revela neles), é ficar
com uma revelação "em depósito" e repetir a atitude (por certo
plenamente "hermenêutica") dos fariseus que apresentaram o
acontecimento de Jesus como "demoníaco" (Lc. 11.15-19).
Há pouco fizemos alusão à
linguagem religiosa. A teologia tradicional difundiu a crença de que o
querigma bíblico se expressa através de conceitos. Sabe, porém, muito bem
falar de símbolos (mal denominados de "sinais") ao referir-se aos
sacramentos. Ignora-se que sobre Deus somente se pode falar por meio de símbolos
(as coisas naturais que, em transparência, remetem a um segundo sentido, que,
de alguma maneira, transcende a experiência fenomenológica) ou mediante o mito
(facetas de símbolos construídos como "relato", que remete às origens
para expressar o sentido de uma realidade, instituição, costume, etc.,
atuais). A fé de Israel estabeleceu uma ruptura com a cosmovisão mítica
(fragmentação do sagrado nos fenômenos da natureza, derivando daí o seu esquema
cíclico), mas nunca com a linguagem do mito, forma imprescindível do
discurso religioso. Em virtude de sua polissemia semântica, o símbolo remete a
outra esfera; o mito é uma linguagem quebrada que elabora uma
"história" de feitos maravilhosos no mundo divino, que instauram a
ordem atual: esse recurso justamente serve para "dizer" o transcendente
ou simplesmente o nível de "sentido" que há nas coisas, naquilo que
é relevante na vida do homem inserido no grupo (não há mitos individuais).
Em uma palavra, a
linguagem sobre Deus não pode fazer abstração da imagem. Deus não se
pode enquadrar em conceitos (o dogma é uma forma de gnose que rebaixa a
experiência da fé ao plano racional da interpretação)[1] representa-se-o em
imagens. E a Bíblia é, de ponta a ponta, uma representação de Deus, seja
na linguagem remetente do símbolo e do mito (mesmo os relatos mais
"históricos" estão interpretados e "quebrados" para dizer
uma dimensão da fé), seja nos tantos códigos lingüísticos ou gêneros literários
que são expressão da "imagem" (no sentido de que cada gênero
comunica uma mensagem por sua estrutura lingüística e não somente pelo
conteúdo; pela "forma" e não somente por conceitos).
[1] P. Ricoeur, "Introducción a la simbólica del
mal", em: El conflicto de las interpretaciones (La Aurora, Buenos
Aires 1976) t. II, p. 25ss.
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