É mister afinar algumas
noções. Em primeiro lugar, aquilo que vínhamos afirmando é mais do que uma
"atualização" da mensagem bíblica, e muito mais também do que uma
"iluminação" de nossa realidade histórica com todas as suas
manifestações. Note-se o caráter disjuntivo destes dois termos tão empregados,
mas que não conduzem ao centro do fenômeno hermenêutico. Ou pelo menos não o explicam em sua
totalidade.
a) O que implica atualizar a
mensagem bíblica? Expressá-la em termos novos? Usar uma linguagem popular?
Verter os semitismos em moldes mais próximos a nós? Diluir os termos
"densos", mas culturalmente contextualizados, mediante glosas
explicativas? Este último acontece às vezes com as versões populares da
Bíblia. Não se pode negar seu benefício, mas é necessário ter consciência de
que estas modernizações semânticas são fugazes e não podem durar muito (é o
problema de uma versão popular da Bíblia que se torna tradicional). De fato, as
formas de atualização mencionadas não ultrapassam os limites de uma
"tradução" ainda que, com esta última, beirem o âmbito da
hermenêutica, mas sempre sem entrar em seu núcleo.
Tratar-se-á de tornar eficaz o querigma bíblico para nossas
situações? Disto se trata, evidentemente. Mas como se faz eficaz uma mensagem
expressa em outro tempo para um povo de outro contexto social e cultural? Esta
exigência pressupõe que se faça algo com o texto em que está inscrita a
mensagem. É aplicando as leis da lingüística do discurso (parte I) e recordando
o processo do acontecimento que-se-faz-palavra (parte II) que se desembaraça
no texto bíblico um sentido que transborda seu primeiro referencial. E é também
o modo como se descobre uma mensagem não esgotada em sua primeira realização.
Assim desembocamos em uma novidade de sentido, característica de toda
leitura hermenêutica, muito notável no seio de todas as tradições religiosas. A
simples "atualização" lingüística do querigma não tem este alcance,
mesmo que esteja orientada para uma boa direção. Acaso não havia uma novidade
na releitura cristológica do Antigo Testamento praticada na época apostólica e
refletida nos livros do Novo Testamento? Por que não haveria de ser nova a
nossa interpretação da Bíblia feita no marco de novas experiências históricas
e de fé?
Devemos recriar a mensagem bíblica e não somente atualizá-la. Não
propomos nada desconhecido. Estamos, isto sim, aclarando as implicações e a
riqueza de uma leitura que já está se fazendo a partir de uma igreja popular, a
partir de processos históricos inéditos, a partir de contextos culturais ou
religiosos diferentes dos do mundo semítico ou ocidental, ou por teólogos que
escutam, se é que não estão imersos na vida do povo.
b) O que acabamos de
assinalar esclarece por sua vez a questão da "iluminação" da história
de nossos povos, ou de nossa realidade, a partir da Bíblia, entendida como
palavra de Deus. Não há um caminho único que vem do texto bíblico. A
circularidade hermenêutica implica também um itinerário inverso como
complemento do primeiro, pois a práxis da fé em um determinado contexto social
tem também algo a contribuir para o "sentido" da Bíblia, justamente
abrindo-o enquanto "palavra de Deus". Por exemplo: uma valorização,
a partir de dentro, das religiões e culturas de dentro, das religiões e culturas
da Ásia, África e América Latina nada tem a contribuir frente a tantos textos
bíblicos que desprezam os símbolos religiosos dos povos vizinhos de Israel? O
clamor dos setores oprimidos não clama também contra uma leitura excessivamente
"espiritualizante" e escatologizante do Novo Testamento?
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