Neste momento convém
recordar que toda a Bíblia, assim como a temos atualmente, é o
resultado, o produto melhor dito, de um longo processo hermenêutico, no
qual atuaram conjuntamente os dois níveis tratados nos parágrafos anteriores:
a) o nível da práxis sócio-histórica de Israel, vivida e refletida por
gerações sucessivas em continuidade com a promessa e os grandes eventos
salvíficos, e b) o nível do "recolhimento" da presença de Deus em
forma de discurso (aspecto lingüístico da revelação) nos relatos históricos, os
"credos" e tantos outros gêneros literários existentes na Bíblia, até
terminar na formação dos textos isolados, os "corpora" legal,
profético, sapiencial, histórico, litúrgico e, por último, o texto canônico
final. Nem a revelação de Deus (nos acontecimentos mais do que em palavras,
cf. mais adiante o ponto nº 3), nem a inspiração (nos textos mais do que nos
autores) são fenômenos isolados. Muito antes, complementam-se e se recriam
dialeticamente. A "palavra de Deus" é gerada no acontecimento
salvífico, interpretado e enriquecido através da palavra que o recolhe e o
transmite em forma (ou em diversas "formas") de mensagem. A
correlação entre o "efeito histórico" (do acontecimento) e o
"efeito de sentido" (do texto) é muito estreita e se prolonga na relação
entre práxis e leitura de uma tradição, texto ou, em nosso caso, da Bíblia.
A exegese crítica procura
compreender a produção dos textos, enquanto que a leitura teológica que se faz
a partir da experiência de fé se concentra no texto produzido, explorando sua
"reserva-de-sentido" lingüística e como "palavra de Deus".
No entanto, também aquela se pratica a partir de um determinado lugar (social,
teológico), ou seja, a partir de uma concepção da realidade e, então, a exegese
é, ao mesmo tempo, eisegese. A releitura teológica de base, por outro lado,
está condicionada pela estrutura, os códigos, a polissemia do texto (não
qualquer polissemia! ) que se deve explorar incansavelmente. Desta vez a
eisegese é exegese. Uma e outra são inseparáveis no ato de produção do sentido
que é a leitura. Toda leitura é um ato hermenêutico, trate-se da Bíblia ou de
qualquer outro texto sagrado ou não sagrado.
É importante
reconhecê-lo. Quando, por exemplo, se critica a leitura política (que não é a
única) da Bíblia que a teologia da libertação faz, está-se fazendo uma opção
política (a partir de uma determinada prática que não tem reflexos políticos) e
hermenêutica: quer-se "enclausurar" uma leitura, porque seu lugar é
ocupado por uma outra leitura da mesma espécie, porém com conteúdos diferentes.
Também com relação à leitura realizada pela igreja popular suspeita-se que
seja sociológica ou política. Por que não é sociológica e política a leitura
tradicional e imposta? Ignora-se que a Bíblia é um texto "produzido"
em correlação hermenêutica com a realidade sócio-histórica de todo um povo e
que, por isso mesmo, está saturada do "político". É a palavra de Deus
para um povo que quer realizar um projeto histórico de paz, justiça, fidelidade
e amor, bem-estar e liberdade.
Será oportuno retornar ao
que já desenvolvemos na parte II: o acontecimento gera uma "palavra"
interpretante e - na direção inversa - converte-se em acontecimento fundante
ao ser recarregado de sentido pelas sucessivas leituras (diagrama de II, 1). E
é no nível das práticas em que estas mesmas leituras, que buscam
"entrar" na palavra-tradição (o texto em seu sentido semiótico e
hermenêutico), se contextualizam e por isso são eisegéticas (diagrama de II,
4). Este fenômeno explica a formação do Antigo Testamento sobre a grande
experiência de fé de Israel e também do Novo como releitura daquele (e não
como literatura paralela) na vida da primeira comunidade cristã.
Muito bem, esse processo
hermenêutico é parte da própria mensagem da Bíblia. Vale dizer: a Bíblia,
tomada como "produto" de um processo hermenêutico, facilita-nos uma
importante chave de leitura, a saber, que seu sentido querigmático somente é
entregue no prolongamento do mesmo processo hermenêutico (=acontecimento >
palavra) que a constituiu. Desta maneira, pretender "fixar"
definitivamente seu sentido ao momento de sua "produção" é negar sua
própria condição de sentido aberto. Em contrapartida, lida a partir da
realidade sócio-histórica (política, econômica, cultural, religiosa, etc.),
revela dimensões antes não vistas, raios de luz não captados pelas leituras
anteriores. O não dito do "dito" do texto é dito na interpretação
contextualizada. Esta é a medula do ato hermenêutico e de alguma maneira
sintetiza o que analisamos até aqui.
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