Se toda leitura é
produção de sentido e se faz a partir de um determinado lugar ou contexto,
então resulta que o verdadeiramente relevante não é o "atrás"
histórico de um texto - o qual por certo não podemos renegar -, mas sim o seu
"adiante": o que ele sugere como mensagem pertinente para a vida
daquele que o recebe ou busca. Como texto polissêmico que é, a sua leitura é
sempre exploradora. O texto desprende "para diante" um
"mundo" de possibilidade, que o leitor pode sintonizar com seu
próprio "mundo". Chamaremos a isto de "fusão de horizontes"[1] ou como se queira. O
importante é o fato de que o "adiante" de um texto nega sua rigidez
e o bloqueio do sentido passado como o único sentido fechado.
A Bíblia é um texto
aberto. Já como texto ela o é. Para isso devemos estar advertidos, se
queremos que ela seja mensagem viva também hoje. Aqueles que mais necessitam
realimentar-se com a mensagem libertadora da Bíblia, os oprimidos de toda
espécie, são aqueles que menos acesso têm tido a ela. Ora, o que chamamos
releitura da Bíblia - um aspecto do complexo fenômeno da hermenêutica - diz
respeito especialmente a eles. Por isso a conscientização sobre a teoria hermenêutica
é vital para a teologia da libertação, a reflexão da fé feita a partir das
esperanças e das lutas dos oprimidos.
A partir desta
perspectiva de uma leitura da Bíblia a partir "da base", há algumas
dificuldades e vantagens. Assinalamos duas desvantagens: a) Antes de tudo, a
Bíblia é um livro muito extenso; nele há de tudo e nele se pode encontrar de tudo.
Existe uma contribuição por parte da semiótica narrativa e da hermenêutica a
esse respeito? Vamos ver que sim. b) A Bíblia é um livro em sua maior parte
terminado e estruturado por uma classe social acomodada e distante do povo.
Isso é mais visível no Antigo Testamento, que reflete mais fortemente a
ideologia do sul (Judá), de Jerusalém em particular, onde atuava a classe
dirigente do país. Aquela situação geral se prolongou através dos séculos no
processo de transmissão catequética e teológica. A teologia clássica tinha os
recursos para reproduzir-se ao infinito e não podia sair de seu círculo.
Quais seriam as vantagens
da Bíblia, assim como a herdamos, para uma leitura criativa e libertadora? Há
uma vantagem inapreciável: Originou-se, na origem do seu próprio povo, em um
processo de libertação. A concepção israelita de Javé, o Deus do povo
hebreu, está indissoluvelmente ligada à experiência de libertação da escravidão
no Egito. Em tal contexto, o Deus salvador se identifica com o Deus libertador.
Após narrar os feitos memoráveis da saída/fuga do Egito, o texto comenta:
"E Israel viu a poderosa mão com que Deus atuou no Egito, e o povo temeu a
Javé e creu nele e em seu servidor Moisés" (Ex. 14.31). É um crer
que surge da experiência de libertação.
Este será daí por diante
o "referente" no projeto histórico-salvífico de Israel. Por isso, no
relato da vocação de Moisés como líder da libertação dos hebreus (Ex. 3.1-20)
- relato que também é "palavra" do acontecimento do êxodo
relido por gerações, o Deus que fala assegura "estar com" Moisés na
luta de libertação (3.12). A glosa dos vv. 13-14, que segue; não identifica
Javé como "aquele que é", mas como "aquele que está (com
Moisés/Israel)". É um comentário ao v. 12, ligando o nome conhecido de
"Javé" com sua presença salvífica naquele acontecimento.[2] O conceito que a Bíblia
tem de Deus é uma releitura da vivência do êxodo.
Por isso também suas instituições,
as festas, a crítica profética à ruptura da aliança, o anúncio de uma nova
ordem de justiça, a esperança messiânica, a proclamação de Jesus, recuperam a
"memória" do êxodo como conteúdo libertador. Mesmo aquilo que foi
adotado do universo cosmovisional mítico terá um novo sentido: o templo, muitos
ritos, a linguagem sobre Javé, etc. Trata normalmente de uma transposição da
linguagem simbólica das religiões vizinhas de Israel (sobretudo na hinologia de
Israel e na disputa profética pela identidade de Javé).
A isto se junta, para
reforçar a teologia do Deus da libertação, o teologúmeno das cosmovisões
vizinhas sobre Deus (e o rei como seu representante) como aquele que distribui
e garante a justiça e o bem.[3] Tudo isto constitui um
"eixo semântico" a nível de texto, que, ao mesmo tempo, é um
"eixo querigmático" a nível de mensagem. Central no Antigo
Testamento, o referido eixo se prolonga no Novo Testamento, através da
mensagem salvífica de Jesus dirigida preferencialmente aos oprimidos de
qualquer espécie; em sua opção pelos pobres; em sua morte como profeta
rechaçado por causa de sua palavra e dos seus feitos.
Cabe neste contexto
relembrar a cena programática de Lucas 4.16-30: Jesus relê como
"cumprido" nele o grande texto de Isaías 61.1-2 sobre o anúncio da
boa nova aos pobres, da libertação aos cativos, da visão aos cegos, da
liberdade aos oprimidos (v.18). Se o relato encerra com uma nova menção da
"boa nova" (v.43), esta continua sendo a mensagem aos pobres e oprimidos
e não um conteúdo genérico e difuso qualquer. O texto conclui: "pois para
isso é que fui enviado" (v. 43b). Não é preferencial, senão até exclusiva,
esta opção pelos oprimidos?[4]
O mistério pascal, elo
articulador do querigma cristão, justamente devido a sua reserva-de-sentido como
acontecimento e como texto da tradição que culmina na narração dos evangelhos;
pode ser interpretado e avaliado em diversas perspectivas pelos relatos do Novo
Testamento[5]. De uma forma ou de
outra, percebe-se a força da esperança por libertação aninhada na consciência
do povo da Bíblia. Mesmo com as transposições de contexto, a mensagem de
libertação impregna as páginas do Novo Testamento, percebendo-se às vezes,
ainda que à distância, os ecos da teologia do êxodo.
[2] Ver "Yavé, el Dios de la
"presencia" salvífica. Ex 3.14 en su contexto literario y
querigmático", Revista Bíblica 43:3, n° 3, (1981) 153-163. Mais
amplamente "Yo Estaré (Contigo). Interpretación de Ex 3.13-14" em:
V. Callado e E. Zurro (eds.). EI Misterio de Ia Palabra (Cristiandad, Madrid, 1983), pp. 147-159.
[3] Cf. H. H. Schmid, Gerechtigkeit
als Weltordnung (Mohr, Tubinga 1968); A. Gamper, Gott als Richter in
Mesopotamien und in Alten Testament
(Wagner, Innsbruck 1966). O tema aparece especialmente nos documentos legais
e nos títulos reais; S. H. Paul, Studies in the Book of the Covenant in the
Light of Cuneiform and Biblical Law (Brill, Leiden, 1970); M. J. Seux, Epithètes
royales akkadiennes et sumériennes (Letouzey et Ané, Paris 1967); N. P.
Lemche, "Anduràrum and mišarum: Comments on the Problem of
Social Edicts and their Applications in the Ancient Near East", Journal
of Near Eastern Studies 38 (1979) 11-22; H. J. Boecker, Law and the
Administration of Justice in the Old Testament and Ancient East (Augsburg Publishing
House, Minneapolis 1980); havíamos feito uma síntese do problema em "EI
Mesías liberador de los pobres", Revista Bíblica, 32, n° 137 (
1970) 233-240.
[4] Uma boa leitura exegética de Lc. 4 é a de C.
Escudero Freire, Devolver el Evangelio a los pobres (Sígueme, Salamanca
1978) p. 138-141 e esp. 259-277.
[5] Para uma ampliação, veja J. C. Maraschin,
"Boas novas aos pobres e libertação aos presos e oprimidos", Simpósio,
21 (1980) 36-51; J. Pixley, "EI Reino de Dios, ¿buenas nuevas para los
pobres?", Cuadernos de Teología, 4:2 (1976) 77-103; para o Jesus
dos evangelhos, cf. Liberación y Libertad (nota 1) cap. V.
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