1.1. Novo sentido em Novas Totalizações
O desenvolvimento do nosso tema nos obriga a
fazer uma precisão, originada na semiótica, mas proveitosa para a hermenêutica.
A "semiótica narrativa" nos ensina que a mensagem de um texto não
está em um fragmento do relato, mas em sua totalidade como estrutura que
codifica um sentido. No relato do sacrifício de Isaque em Gênesis 22, por
exemplo, não é uma "frase principal" que evidencia a significação do
episódio, mas sim toda a seqüência de funções narrativas intervêm na produção
de sentido por parte da leitura subseqüente. Porém um relato "tecido"
com outro produz um novo relato, não uma soma dos dois, e o sentido
estará nessa nova totalidade codificada que constitui um texto e não mais é a
soma das duas unidades literárias ou de suas significações originais. A
produção de sentido se modifica, e assim sucessivamente, à medida em que um
texto entra no outro texto, à medida em que da intertextualidade passa a uma
intratextualidade maior.
Através dos métodos críticos pode-se
reconhecer acréscimos ou interpolações nos textos. No Salmo 78, o v. 9 destoa
do contexto. Faça o leitor uma prova,
lendo-o sem esse versículo e verá que o hino é uma confissão nacional de
pecados, com ênfase na ruptura da aliança e na infidelidade à Lei. Os verbos na
3ª pessoa do plural dos vs.10ss referem-se aos "pais", à geração do
êxodo e do deserto (cf. vv. 4b-7). Em uma segunda leitura, que é a atual,
reponha o v. 9 que diz: "os filhos de Efraim, destros arqueiros,
retrocederam no dia do combate". Isto nada tem a ver com aquilo que o hino
vinha dizendo, no entanto produz um efeito de sentido estrutural: os verbos que
seguem (v. l0ss) referem-se agora aos efraimitas, aos israelitas do norte.
Dessa maneira, todo o salmo é modificado em sua estrutura e em mensagem. Esta
mudança recebe a sua confirmação no complemento dos vv. 67-72 que exaltam a
eleição de Judá e de Jerusalém, ou seja a ideologia do sul, e rechaçam o Israel
do norte.
Qual texto nós devemos ler? Sem dúvida
alguma, e por pouco que isso nos agrade, o texto em sua forma atual. A
reconstrução crítica do relato nos ajuda a pôr em relevo a sua nova redação.
Contudo, o acréscimo já não é o mesmo no texto transmitido: é um novo
texto que, assim como é, produz sentido. Porém sempre terá o seu "adiante"
hermenêutico aquilo que ele nos diz a partir de um novo horizonte, que de certa
maneira é uma "nova intratextualidade".
A passagem da intertextualidade à
intratextualidade pode ser ilustrada excelentemente com o livro de Amós. É
conhecida a divisão do relato profético em duas seções distintas. Enquanto
1.1-9.10 contém oráculos dirigidos a Israel, todos de crítica e denúncia dos
pecados sociais dos poderosos contra os humildes, em 9.11-15 anuncia-se a
restauração da dinastia davídica e uma grande prosperidade futura. Sem qualquer
dúvida, estes vs. finais são posteriores a Amós (as figuras, o conteúdo, a
oposição ao restante do texto, são provas suficientes). Porém, o que resulta
disso? Pensar que um redator justapôs oráculos de épocas diferentes é uma
constatação banal. Outra coisa é reconhecer aí um evento lingüístico e um
fenômeno hermenêutico de profundo valor teológico. Com efeito, o livro de Amós,
em sua forma atual, é um texto e como tal deve ser lido para se captar toda
sua mensagem. Não importa que já não seja o texto do Amós histórico, mas sim
que é um texto de Amós (cf. a análise de I, 3, b).
Os oráculos de salvação finais modificam
a posição narrativa e, portanto, o significante dos castigos. O que estes
últimos significavam antes (em sua proclamação pelo profeta, ou como
obra literária), a saber, o juízo definitivo e a destruição do povo de Israel,
significam agora que o castigo não é total e que obedece a um desígnio
profundo que é o de possibilitar a continuidade da própria promessa: Deus não
pode suportar o pecado e a falsidade, nem a injustiça (Amós 1-9) que invalidam
o projeto histórico reconhecido na libertação do êxodo (veja a tematização de
2.6-16). Israel não se converte por causa da denúncia profética,[1] mas sim no sofrimento da
ruína, situação em que recupera sua fidelidade ao Deus libertador que, uma vez
mais, salva de uma nova opressão (a do exílio).
Repetimos: Amós 1.1 até 9.15 é um texto que
deve ser lido como totalidade narrativa e estrutural que modifica a mensagem
das partes integradas. Em outras palavras, não é a mesma coisa se 9.11-15
tivesse se constituído em livrete em separado ou fosse uma das seqüências
narrativas do grande relato de 1.1 a 9.1 5. Como fenômeno hermenêutico, o texto
de Amós dá a entender que o acontecimento do cativeiro ou da situação de
povo dominado do Judá pós-exílico o conduziu a reinterpretar a antiga mensagem
do profeta (já concretizada na sua expressão de juízo) à luz de uma nova
esperança de libertação.
Entretanto, o leitor ter-se-á dado conta de
que a redação atual não se dirige mais ao reino do Norte, Israel, mas a Judá. A
releitura implicava esta transposição. Reler não é evacuar o sentido, mas
explorar sua sobre-abundância latente em sua polissemia textual. Amós 9.11-15
destaca com toda clareza a exigência de justiça de 1.1-9.10, como núcleo
querigmático que se projeta à nova etapa anunciada nos versículos finais do
relato.
1.2. A Bíblia: Um Texto Único
Muito bem, o que este exemplo nos mostrou em
pequena escala pode ser estendido a toda a Bíblia. De alguma maneira, este é um
texto, sobretudo desde que constitui um cânon delimitado de obras literárias.
Esta clausura instaura novas relações entre as diferentes partes e entre os
diferentes "corpora" (legal, histórico, profético, sapiencial,
evangélico, epistolar, apocalíptico, etc.). Assim como toda obra estruturada,
tem um começo e um fim (Gênesis/Apocalipse) e uma ordem interna.
A justaposição do cânon judaico e da produção
cristã primitiva produz também um efeito-de-sentido, que é o de apresentar o
Novo Testamento como uma formidável releitura do Antigo. A justaposição
externa converte-se, assim, em totalidade fechada. Continuar falando de
"Antigo" e "Novo" Testamentos tem uma utilidade prática
(distinguir blocos, tradições, épocas), mas é um tipo de linguagem que destrói
o esforço hermenêutico, da igreja primitiva de constituir um único
texto. Melhor seria empregar termos como "Bíblia",
"Escrituras". Tampouco se pode ser especialista em "Antigo"
ou "Novo" Testamentos. Isso é um desmembramento antissemiótico. Pode
haver uma dedicação maior nesta ou naquela parte da Bíblia. Porém estudar ou
ensinar "Antigo Testamento" sem entrar no chamado "Novo
Testamento"; estudar ou ensinar este sem buscar suas raízes no chamado
"Antigo Testamento" significa uma ruptura epistemológica que anula
especialmente o sentido daquele como releitura das tradições de Israel. Seria,
ironicamente falando uma nova releitura da Bíblia como se fossem duas obras
distintas. Uma coisa, por certo, bastante estranha.
Por isso a Bíblia é um
texto, não é, por adição, a soma de muitas unidades literárias, mas a
unificação de um querigma central, lingüisticamente codificado. Desde então, é
possível reconhecer neste grande relato os "eixos semânticos" que
orientam a produção de sentido que é a nossa leitura da Bíblia. Esta é uma
tarefa quase nova, infinitamente importante, sobretudo frente à dificuldade
assinalada no começo da seção anterior no parágrafo 2 (a extensão e diversidade
de tradições e conceitos teológicos da Bíblia). Ao final dessa seção havíamos
sugerido um desses "eixos de sentido" da Bíblia como totalidade (o
querigma da libertação dos oprimidos). Outros "eixos" que estruturam
toda a Bíblia como grande relato são os de justiça, o amor e a fidelidade, a
esperança, a aliança, a profecia, a presença de Deus como graça, o juízo, a
liberdade, etc. A tarefa não consiste em registrar temas relevantes, mas
registrar sua estruturação na obra total que é a Bíblia.
Retomar a Bíblia como um
texto enriquecerá em muito as leituras fragmentárias de perícopes ou livros.
De saída há necessidade de rechaçar os estudos limitados ao léxico, pois
transferem a mensagem do relato como totalidade para as palavras em seu valor
semântico, o que às vezes é uma regressão ao estado da língua ou do dicionário!
As palavras têm sentido somente em um texto que o enclausura. Se em um relato
maior há muitos micro-relatos, o sentido de um mesmo vocábulo não se unifica.
A palavra "justiça", por exemplo, não tem um mesmo sentido ao longo
de toda a Bíblia. Seria um erro de perspectiva que às vezes se comete,
forçando a significação dos vocábulos e esquecendo que o importante não é o
vocábulo, mas o relato. Quando falamos de "eixos semânticos" não
estamos afirmando que "justiça", "libertação", etc., têm
somente um sentido em toda a Bíblia, mas sim que nesta, entendida como
totalidade narrativa, há uma nova produção de sentido, onde muitos sentidos de
alguns vocábulos ou idéias, que não se desprendem de seus próprios contextos
literários, estruturam-se de maneira tal que produzem um efeito-de-sentido novo.
Buscar na Bíblia os
"eixos semânticos" é fazer uma nova leitura, hermenêutica por
pressuposto, graças à contribuição da semiótica. Por exemplo, há narrações
bíblicas, ou textos soltos, que defendem o rei como representante de Deus, por
ele designado para governar Israel, e há outros que o apontam como rival de
Javé ou que o criticam como infiel em sua função. Há textos que rechaçam a
autoridade e outros que exortam a obedecer as autoridades. Na totalidade da
Bíblia, no entanto, não é assim que o poder - do rei, do juiz, etc. é um
instrumento para salvar os desvalidos, aqueles que não têm poder e por isso
são explorados, aqueles que não o têm e por isso não podem libertar-se? Não
resulta disso, ao mesmo tempo, que o poder em mãos humanas é frágil e
facilmente se corrompe e se degenera em opressor?
Convém relembrar que a sinagoga compreendeu o
cânon das Escrituras como uma totalidade. Quando alguns textos aludem à
"Lei", não se limitam ao Pentateuco somente, mas referem-se a todas
as Escrituras enquanto são estatuto divino para Israel. Também o termo
"Profetas" às vezes se refere à totalidade dos livros de cânon que
são entendidos como mensagem escatológica. Essa foi também a perspectiva da
igreja primitiva que releu todo o Antigo Testamento como texto total
e único (nível semiótico) com uma chave hermenêutica única (o mistério
pascal). Essa releitura não consistiu em despojar o Antigo Testamento dos
livros menos apropriados ou das passagens que realçassem o valor da Lei e que
às vezes inclusive contradissessem a práxis cristã (como por exemplo o anátema
ou hérem, o ideal de domínio de Israel sobre as outras nações: Dt.15.6;
Is 60.12, etc.). O normal
teria sido excluir o Levítico e muitos outros textos que regulam a ordem
sacerdotal perimida (N.T. sem significado) para os cristãos. Não foi
assim. O chamado Antigo Testamento, como uma unidade, é a palavra de Deus que
transborda a contextualização de cada uma das passagens e se orienta a um télos
(N.T. de teleios, fim, propósito, objetivo
completo)
querigmático, que é Cristo (Gl. 3.24 com Rm. 10.4).
Se tivesse recortado o cânon judaico, a
Igreja teria produzido outro texto cuja leitura já não poderia ser a
apropriação do sentido das tradições de Israel. Este era um ponto decisivo,
pois a igreja emergente não tinha consciência de ser outra "criação",
mas a reinterpretação de Israel. Mais ainda: ser a interpretação
de suas tradições (a clausura hermenêutica esperada), como se vê na apropriação
de todo o simbolismo de Israel nos escritos cristãos (canônicos e patrísticos),
no esforço missionário em mostrar que Jesus era o Messias esperado por Israel,
na primeira pregação aos judeus, etc. A Igreja era, então, o novo Israel e por isso devia
reler suas Escrituras como totalidade, sabendo descobrir nelas os grandes
"centros de gravidade".
Enquanto a exegese rabínica estava mais presa
aos textos pequenos, às palavras (cf. o Talmude), a exegese cristã buscava
sintonizar com o sentido total dessas Escrituras. Tinha-se situado em sua
intratextualidade, anexando a ela logo novos textos (evangelhos, espístolas,
outros), que eram sua releitura, formando assim outra intertextualidade (estes
textos se interrelacionam com aqueles). A distância, nossa releitura deve
assumir novamente a Bíblia em seu caráter de intratextualidade nova, para assim
podermos redescobrir seus novos eixos semânticos e relê-la a partir de nossa
vida.
[1] Veja "Palabra profética y no-conversión: la
tematización bíblica del rechazo al profeta" (a ser proximamente publicado
no ISEDET, Buenos Aires).
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