CINCO ABORDAGENS DE LEITURA DA BÍBLIA


A Bíblia tem sido objeto de diferentes abordagens, todas elas ob­jetivando explorar seu sentido ou sua mensagem. Algumas aborda­gens expressam o "problema" da leitura atual da Bíblia, outros bus­cam penetrar em seu conteúdo. Apontamos cinco aproximações ge­néricas:

1.      Realidade Presente como "texto" primário


Frente ao texto da realidade presente, entendido como o "lugar teológico" privilegiado para descobrir o Deus que fala e interpela o homem, pode-se relegar a Bíblia a um segundo plano, entendendo-a como um texto "desatualizado". A realidade está tão car­regada de significado que qualquer outro "significante" teológico resul­ta como secundário. Quando as opções estão claras, não faz falta alguma ir à Bíblia.
Não é essa a atitude de muitos cristãos compro­metidos com a luta revolucionária contra as estruturas injustas deste sistema em que somos obrigados a viver? Que mensagem "nova" lhes traz o Evangelho? A pergunta é sincera. Cremos, porém, que deixa entrever uma dificuldade metodológica para sair de uma leitura tradicional da Bíblia que a tem alienado da história real dos homens. O obstáculo é visível em alguns teólogos da libertação, que, mais do que outros, valorizam a práxis sócio-histórica como parâmetro da reflexão teológica.

2.      Concordismo


Outro caminho consiste em assumir a Bíblia como ela é, buscando nela "correspondências" entre as nossas situações e os eventos nela relatados. Quando há coincidências, parece que Deus está falando através do "evento arquetípico."
Logo à primeira vista, esta aproximação à Bíblia se evidencia como concordista. Bem, o con­cordismo (tão difundido, sobretudo nas leituras fundamentalistas do texto sagrado) é duplamente negativo: a) Reduz a mensagem a situações que têm equivalente na experiência de Israel ou da primeira comunidade cristã, como se Deus não soubesse falar ou revelar-se de outra maneira. É um reducionismo teológico. b) O concordismo tor­na a mensagem superficial, colocando-a ao nível de faticidade exter­na, confundindo o que acontece com seu sentido.
O mesmo perigo existe quando, em algumas teologias, se busca uma continuidade entre as idéias do Antigo ou do Novo Testamento e as de uma cultura específica, por exemplo asiática, africana ou latino-americana. O que acontece onde não se verificam tais coincidências culturais, pontes entre a antropologia hebréia e a grega? Para os gregos, Deus seria quase irrevelável. De imediato, descobre-se que nas tradições africa­nas e em algumas pré-colombianas há muitas semelhanças com a cosmovisão hebréia. Confunde-se o querigma com seu revestimento cultural ou sua "contextualização".
É verdade que a busca por "sinto­nias" entre a Bíblia e o contexto atual (cultural, mas sobretudo sócio-histórico) pode ser um ponto de partida para explorar a valida­de daquela para o homem de hoje. O que realmente é empobrecedor é o concordismo histórico e científico, que consiste em querer confirmar a Bíblia com determinadas descobertas das ciências mo­dernas (por exemplo, as grandes eras geológicas e os dias da criação do mundo) ou então equiparar fatos históricos da Bíblia e de hoje. No primeiro caso, tal confirmação não existe; em ambos se esvazia o texto sagrado de seu conteúdo querigmático, tornando inútil qual­quer tentativa hermenêutica para explorar o sentido mais profundo do texto. E pensar que a leitura concordista da Bíblia tem sido tão comum, inclusive rio âmbito do fazer teológico sistemático!

3.      Métodos Histórico-Críticos


Os métodos exegéticos formulados pela moderna crítica bíbli­ca abriram novas perspectivas de abordar a Bíblia, na medida em que, ao redescobrirem o horizonte histórico e cultural no qual a Bíblia se originou, possibilitam uma melhor contextualização do sentido origi­nal de cada passagem. A exegese crítica rompeu, em primeiro lugar, com as leituras ingênuas, "historicistas" e concordistas da Bíblia, as quais, conforme assinalamos no parágrafo anterior, despistam o senti­do real do texto. Porém, amplia sobretudo a exploração dos textos. A crítica literária, a crítica das formas e dos gêneros, ou códigos lite­rários, das tradições (orais e literárias), da redação, revolucionou os estudos bíblicos nas últimas décadas, sanando muitos defeitos da teo­logia cristã e, de forma indireta, gerando uma renovação em todos os campos da atividade teológica.
Ao lado destes indiscutíveis benefícios que convertem os méto­dos exegéticos em conquista inestimável, o seu uso exagerado e às ve­zes reducionista comporta alguns riscos. Por um lado, mostram o "atrás" do texto atual, a arqueologia, deslocando a atenção do exege­ta ou do leitor da Bíblia para um nível pré-canônico. O Pentateuco, por exemplo, é interpretado conforme as teologias "javista", "elois­ta", "deuteronomista", "sacerdotal" ou outras. Enfatiza-se o pré-­texto. A partir da crítica literária, que permite identificar os passos da formação do texto, os outros métodos conduzem até as mais re­motas origens e, através da história da redação, reconduzem até o es­tado presente de uma obra ou de parte dela. Este extenso arco, que sai do texto e volta até ele, é muito mais uma história do texto do que a exploração do seu sentido, ou pelo menos este se identifica com o sentido das camadas anteriores, caso nos sejam acessíveis.
Não posso, sem embaraço, entender o Pentateuco à base do "javista"', etc., seja porque não sei quanto de sua obra foi mantida na redação atual, seja porque o autor do Pentateuco fez uma obra nova. O senti­do, portanto, não está nos fragmentos usados, mas sim, na totalidade estruturada do novo. A crítica da redação reduz em parte este defei­to. Porém, ao falar de "redator" em lugar de "autor" e ao designar-se como "história da redação", coloca mais ênfase na formação do tex­to do que no próprio texto.
Por outro lado, a preocupação em funda­mentar a verdade das ciências do espírito, tão própria da consciência ocidental desde alguns séculos,[1] concentrou a atenção sobre o senti­do literal, entendido como o sentido "histórico" (a própria designa­ção de "método histórico-crítico" já o revela). Isto é uma forma de re­ducionismo.[2] Por isso há o interesse pela intenção do "redator" deste ou daquele texto, o qual é contextualizado com todos os recursos possíveis. Este é importante, porque do contrário, conforme já assi­nalamos, desvirtua-se o processo por buscar o sentido na pré-redação. No caso de ênfase muito grande na intenção do autor ou do redator como sendo este o único sentido, corre-se o risco de enclausurar no passado a mensagem da Bíblia, entendida como "depósito" de um "sentido fechado", coincidente com o pensamento de seu redator ou então dos pré-redatores do texto atual. Cremos que a possibilidade significativa de um texto não termina aqui. Apesar de sua importân­cia imprescindível, esta abordagem evidencia-se como parcial, espe­cialmente para a teologia dos povos oprimidos. Por aqui é necessário passar, porém, não parar.

1.      Análise Estrutural


Uma contribuição mais recente aos estudos bíblicos provém das ciências da linguagem, em particular da lingüística e da semió­tica narrativa. A literatura e a ciência da linguagem sempre contri­buíram positivamente para o conhecimento da Bíblia. O desenvol­vimento recente da análise estrutural está sendo aplicado aos textos bíblicos com bons resultados. O estudo da chamada estrutura pro­funda, tanto narrativa (ações, funções) como discursiva (papéis te­máticos, eixos de sentido) ajuda a "centrar" o sentido de um tex­to. A estrutura de superfície, comumente chamada estrutura lite­rária é, por outro lado, ainda mais fecunda pois nos dá certas cha­ves de leitura que são resultantes da codificação do texto. Enrique­cedor como é, esse método é apenas um ponto de partida na busca pelo sentido. Mais adiante veremos como esse método presta bene­fícios. Em si mesmo, porém, é reducionista ao fazer a abstração da "vida" do texto, sua história, seu contexto cultural, social ou reli­gioso.

2.      A Hermenêutica


O quinto caminho para ter acesso ao querigma bíblico é o da hermenêutica. Esse é o tema do presente ensaio. Antes de tudo, po­rém, algumas considerações preliminares. Anteriormente fizemos alusão ao matiz do termo confrontado com o termo "interpreta­ção". Mas, a noção bultmaniana de hermenêutica não é suficiente, nem o é a da "nova hermenêutica" de Fuchs, Ebeling ou seus conti­nuadores.[3] Que na leitura da Bíblia haja uma pré-compreensão (Voverständnis), isso é um dado comum e extremamente valioso para nós. Que seja um "acontecimento da linguagem" (Sprach­ereignis) ou da "palavra" (Wortereignis) em toda sua densidade pre­sente, isso não a esgota nem é suficiente. Não se explicitam as condi­ções objetivas da Bíblia enquanto linguagem, desvaloriza-se o referen­cial original do texto[4] e se fomenta uma leitura individualista da Bíblia.
Para compreender a hermenêutica em toda a sua riqueza e seu va­lor metodológico, é oportuno fazer um desvio pelas ciências da lin­guagem. Uma vez que a hermenêutica tem a ver com a interpretação de textos - ou de acontecimentos codificados na linguagem -,  é mis­ter situá-la sobre o fundamento da semiótica, a ciência dos signos, cu­ja expressão mais compreensiva é a linguagem em seu sentido restrito. Outra coincidência reside no fato de que tanto a hermenêutica como a semiótica preconizam a leitura como produção (e não repetição) de sentido.
À primeira vista estamos diante de um paradoxo: A herme­nêutica parece estar ligada à diacronia, ao devir do sentido, à semânti­ca ou transformação do sentido das palavras ou dos textos, ao passo que a semiótica concede um lugar privilegiado à sincronia, à simulta­neidade, às leis estruturais que dirigem a realização da linguagem. Fa­lamos, porém, de "desvio", não de fusão nem de identificação. São enfoques diametralmente opostos, porém, não contraditórios, mas sim, convergentes. Ao regressar da semiótica à hermenêutica, respei­tando a individualidade de ambas, esta última se evidenciará solida­mente fundamentada. Empreendemos, pois, um longo caminho, ao final do qual a hermenêutica bíblica se mostrará melhor iluminada.

Concluímos esta introdução resumindo os enfoques ou acessos ao texto bíblico (como a qualquer obra literária) com o esquema seguin­te (os números remetem aos parágrafos do texto; chamará a atenção a exclusão do nº 2):


A figura indica que um texto pode ser examinado a partir diferentes ângulos, estudado com métodos diversos, que não se excluem mutuamente, mas que devem convergir para uma melhor compreensão da obra, em nosso caso a Bíblia. A única abor­dagem que não tem lugar aqui é a concordista (no 2), uma vez que não leva ao sentido, mas desvia dele.


0[1] Para uma síntese do problema, cf. P. Ricoeur, "La tarea . . ." (cf. nota 2), p. 221ss.
0[2] B. S. Childs, "The sensus litteralis of Scripture", em: Vários, Beiträge Zur Alttestamentlichen Theologie: Festschrift. W. Zimmerli, (Vandenhoeck & Ruprecht, Go­tinga 1977) p. 80-93, esp. 88ss.
0[3] Para uma visão de conjunto, C. E. Braaten, History and Hermeneutics ( Lutter­worth Press, Londres 1968) cap. VI; H. Kimmerle, "Hermeneutical Theory or Ontological Hermeneutics", em: History and Hermeneutics (Harper & Row , New  York 1967) 107-121; J. M. Robinson e E. Fuchs, La nuova ermeneutica (Paideia, Bréscia 1967).
[4] O que alguns chamam "o parâmetro ontológico (= histórico)" . Cf. R. Lapoin­te, Les trois dimensions de  l'herméneutique (Gabalda, Paris 1967) p. 89ss.

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