Na lingüística é comum
fazer distinção entre "língua" (langue/language) e,
"fala" (parole/speech). Aquela é o sistema de signos e leis
que regulam a gramática e a sintaxe; uma espécie de "cânone" que estabelece
as regras do sentido. Sua base é a estrutura que supõe diferenças, oposições e
relações fechadas no interior de cada idioma, e que funcionam sincronicamente
mais no nível inconsciente do que no nível reflexivo. Em determinado idioma, o
repertório de signos lingüísticos é finito e fechado (há um limite de
combinações). Subjacente a isso, no entanto, há uma polissemia potencial:
"volume", por exemplo, faz pensar em um livro ou então em uma medida
de capacidade na geometria. "Castanha" é um fruto ou uma cor. Em
todos os idiomas há um determinado número de vocábulos polissêmicos.
E não somente isso:
mesmo os "monossêmicos", que são maioria, não dizem nada do jeito que
estão codificados em um dicionário. Também uma frase que tem sentido
lingüístico ( = o sentido é a relação entre significante - o signo ou vocábulo
- e o significado ou conteúdo) pode ser equívoca quanto ao seu referencial
extralingüístico. "Jesus Cristo nos salva" é uma frase correta, tem
sentido gramatical e existencial, porém é equívoca em seu referencial (de que
nos salva? quando? etc.). Falta algo que feche o sentido para uma determinada
direção. Assim é a língua enquanto "competência", como dizem os
lingüistas.
Esse sistema de signos,
no entanto, deve "ser ativado" quando o usamos para dizer
algo sobre algo. Aí estamos já no momento da "fala", que pode ser
entendido como o "acontecimento" da língua. E o ato que realiza as
possibilidades possíveis através do sistema de signos. Três fatores auxiliam
para "fechar o sentido" em uma única direção:
a)
O emissor
ou locutor que seleciona os signos (palavras, frases, códigos ou gêneros
literários possíveis em determinado idioma) que veicularão a mensagem; os
signos somente se relacionam entre si, formando uma estrutura; por isso é
fundamental identificá-la para poder decodificar uma mensagem. Disto advém a
importância de toda a análise estrutural para a exegese bíblica como para a
exegese de qualquer texto.
b)
Um receptor
ou interlocutor determinado, a quem se dirige a mensagem codificada em uma
determinada forma, e que saiba decifrá-la, operação instantânea que é uma das
maravilhas da linguagem humana.
c)
Um contexto
ou horizonte de compreensão comum ao emissor e ao receptor, que permita fazer
"coincidir" a referência ou denotação, aquilo sobre o que versa a
mensagem. Sem esse contexto comum (lingüístico, cultural, social, geográfico e
de tantas outras dimensões da realidade humana), a linguagem permanece sendo
polissêmica.
Pois bem, no ato do discurso - no "ato de
fala" - deve haver clausura atual da polissemia potencial das
palavras ou das frases. Do contrário é impossível falar, a não ser que se
mantenha uma polissemia deliberada, como na poesia ou na linguagem simbólica.
Mesmo neste caso, o contexto - e em todo caso o diálogo entre os
interlocutores - ajuda a "fechar" o sentido de uma palavra ou de uma
proposição. Do contrário, o discurso já não é mais um "dizer algo sobre
algo". E esta é a intenção de quem fala, escreve uma carta a um amigo ou
relata uma história a seus ouvintes.
No "acontecimento da
fala", o receptor da mensagem realiza um processo de assimilação ou captação
do código lingüístico selecionado pelo emissor para sua comunicação. Tal como
acontece na música, assim também se verifica na linguagem: a mensagem vem dada
em uma "chave" ou código que o ouvinte identifica de imediato. De outro
jeito não haveria compreensão. Confundir os códigos despista totalmente o
direcionamento da mensagem. Da mesma forma como é necessário sintonizar a
freqüência de onda num rádio, a mensagem também deve estar "em
sintonia".
Voltaremos a essa questão
ao nos referirmos ao processo hermenêutico propriamente dito. Por ora recordemos
somente que a leitura tradicional da Bíblia, ao interpretar todos os textos em
"chave" histórica, tem falhado num ponto essencial. Em
nenhuma outra literatura se cometeu erros tão elementares. É como se alguém
escutasse todas as composições musicais em uma única chave ou segundo o sentido
de um único gênero! Por isso votamos a assinalar uma vez mais a importância das
ciências da linguagem - sobretudo da "semiótica narrativa", como
veremos - para afirmar a sua validade para a compreensão de textos bíblicos.
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