A LINGUAGEM COMO TEXTO E COMO ESCRITA


Da língua à fala, da competência à sua atualização, do sistema ao uso, tem lugar uma primeira distanciação, que marca o "fechamento" do sentido. Tal "distância" não é temporal nem espacial, é lógica.

A linguagem, todavia, não termina nesta etapa. Com efeito, produz-se uma "nova distanciação" (que chamaremos de segunda), quando o discurso se cristaliza em um "texto" transmitido. Entendemos este vocábulo no seu sentido amplo, uma vez que um texto também pode ser oral. Um mito ou uma canção, por exemplo, costumam ser transmitidos de geração em geração por via oral, antes de serem fixados por escri­to. Quase todas as narrações bíblicas foram de alguma forma tradi­ções orais. E já eram "textos". Segundo a etimologia, texto é um "te­cido", uma trama em que os elementos da língua (palavras, frases, unidades literárias e outros elementos) estão organizados segundo funções estruturadas que, como tais, produzem um sentido.
As leis lingüísticas da frase se repetem e se ampliam a nível de relato. Efeti­vamente há uma gramática e um sintaxe do relato.[1] Aqui sublinhe-­se novamente a estrutura com suas "diferenças" e relações e com um caráter de totalidade organizada.
Um texto é algo estruturado e aca­bado. Tem limites e relações internas. Esta condição do texto tem conseqüências dignas de atenção, a primeira das quais é sua capacida­de de dar sentido por aquilo que é, como codificação de uma mensa­gem. Em segundo lugar, o texto oral ou escrito se abre para uma nova compreensão graças a esta segunda distanciação já assinalada, que acontece entre a "fala" ou ato de discurso e a inscrição do sentido neste ou naquele texto. Esta distância tem lugar nos três fatores que antes contribuíam para o fechamento do sentido e agora contribuem para abri-lo. Vamos enumerá-los e explicá-los na mesma ordem:

a)      No texto desaparece o emissor original. O autor (se falamos de escritura) "morre" no próprio ato de codificar sua mensagem. A ins­crição do sentido em um relato ou texto qualquer é um ato criativo, no qual, para dizê-lo simbolicamente, deixa-se a vida. Avaliar as con­seqüências deste fenômeno é significativo para a hermenêutica que faz o desvio pela lingüística e invalida as tentativas de recuperar uma antiga formulação (veja Schleiermacher) ou o esforço dos mé­todos histórico-críticos de recuperar e fazer reviver o autor de um texto.

b)  Também o primeiro "receptor" ou interlocutor não está presente. Quem lê um texto escrito ou escuta um relato tradicional, um mito ou uma passagem bíblica, não é o seu primeiro destinatário (= narratário no léxico da semiótica). Esta troca dos destinatários da mensagem é muito mais evidente nos textos religiosos, míticos ou não, que pre­tendem ter uma significação permanente ao longo de gerações e sé­culos.

c)  Pela mesma razão, desvanece-se o horizonte do primeiro dis­curso, seja porque o contexto cultural ou histórico não é o mesmo, seja porque os destinatários atuais que recebem a mensagem têm um outro "mundo" de interesses, preocupações, cultura, etc.

Estes três aspectos (muito assinalados por P. Ricoeur em seus úl­timos trabalhos de hermenêutica),[2] tomados em conjunto, contri­buem para compreender o processo hermenêutico. Com efeito, a) o autor desaparece como entidade que "fala", e a quem pode-se pergun­tar pelo sentido daquilo que "diz". Em conseqüência, o narrador não é uma pessoa de carne e osso, mas sim, um pressuposto lingüístico. Alguém narra ou escreve, porém somente no texto é possível reco­nhecê-lo. Essa ausência física é riqueza semântica. O fechamento do sentido imposto pelo locutor, modifica-se agora em abertura do sen­tido. O narrador é o próprio texto, não alguém de fora a quem se pu­desse pedir explicações. Esta concentração no texto permite explorar as suas possibilidades significativas enquanto texto. b) Bem, o surgi­mento de um novo receptor da mensagem, por sua vez situado em um novo horizonte de compreensão, distancia ainda mais o texto de seu marco original e do contato com seu autor. Quando alguém fala, transmite uma mensagem (linguagem locucional, como se diz), fá-lo, contudo, com força ou intensidade determinadas (linguagem inlocu­cional expressada pela entonação, pelos gestos, etc.) e com um efei­to que faz parte da mensagem (linguagem perlocucional).[3] Pois bem, na leitura de um texto perdem-se os dois últimos aspectos, pois, em ordem decrescente, mais dificilmente podem ser inscritos em um código.
Por isso não é a mesma coisa ler ou escutar como primeiro destinatário ou como segundo. Nem mesmo escutar uma gravação repete a primeira enunciação; mesmo que não variem os destinatá­rios, o contexto ao menos já não seria o mesmo e o texto produziria efeitos-de-sentido diferentes. Por sua vez, quando "escutamos'' um texto, aquele que fala é o texto e não aquele que o lê em voz alta para os outros. Este é apenas mais um dos destinatários! Tampouco fala o autor, pois esse já não está presente. Sua presença é tão aparen­te como dizer que o sol gira em torno da terra. Uma vez mais volta­mos à autonomia do texto, que condicionará a abertura hermenêuti­ca do ato de ler.
Mas o que acontece então? Substitui-se o horizonte finito do au­tor pela infinidade textual. O relato se abre novamente a uma polis­semia, que não somente é potencial como ao nível da "língua", mas sim potenciada por aquela rede de significado que é a obra. Por essa aber­tura do texto introduz-se o novo destinatário com seu próprio "mun­do".
Podemos entender que uma carta de Paulo dirigida a destinatá­rios concretos (colossenses, romanos, etc.), onde o autor e seus leito­res se referiam a um problema específico, teve que trocar de perspec­tiva quando se universalizou na igreja primitiva. Os novos receptores do texto não estavam delimitados pela leitura prévia dos cristãos des­ta ou daquela igreja, nem podiam perguntar a Paulo o que quis dizer nesta ou naquela frase.
Todo texto está aberto a muitas leituras, ne­nhuma das quais é repetição da outra. Quanto maior a distância em relação ao autor, tanto maior dimensão adquire a releitura de um tex­to. Inversamente, quanto maior é a riqueza semântica de um relato, mais distante está o autor da mente do intérprete.
Por essa razão, os textos sagrados ou os relatos míticos costumam ser anônimos. Isto não somente por às vezes serem criação progressiva de uma comuni­dade, mas sobretudo porque têm mais significação por aquilo que di­zem do que por aquele que o diz. Parece que sua carga de sentido é mais densa quanto menos se sabe sobre seus autores. Assim, para o caso da Bíblia, não temos notícia de nenhum autor dos livros do Antigo Testamento e de poucos do Novo Testamento.[4]
É próprio (porém não exclusivo) dos textos religiosos a "atribuição" posterior a uma determinada figura (p: ex.: os Salmos de Davi, o Pentateuco de Moisés, a Sabedoria de Salomão, algumas epístolas do Novo Testa­mento a Paulo, etc.), quando esta é significativa por alguma razão. Trata-se de um acontecimento hermenêutico que será esclarecido no decorrer do desenvolvimento do nosso tema. Outra faceta do mesmo fenômeno é a ampliação de um texto de um determinado autor atra­vés de sucessivas releituras, sem que na tradição se modifique sua au­toria. Este é o caso do Evangelho de Mateus e outros escritos do No­vo Testamento. Mateus é autor do núcleo aramaico primitivo; a for­ma atual do primeiro evangelho é uma reelaboração subseqüente. Na tradição, porém, continua sendo o texto de Mateus (sobre essa ques­tão, veja um pouco mais adiante, em I, 3, b).
Para concluir esta parte, resumimos o tema com uma figura que retoma aspectos centrais do que tratamos:





[1] É um elemento muito enfatizado na semiótica narrativa, analisado em detalhe por todos os que investigam a análise estrutural do relato (R. Barthes, T. To­dorov, J. Kristeva, etc.). Para o caso da Bíblia, veja, por exemplo, J. Calloud, Structural Analysis of Narrative (Fortress Press, Filadélfia 1976).
[2] P. Ricoeur, "Événement et sens", Archivio di Filosofia (1971) 15-34; Id., "La función hermenéutica de la distanciación", em: Vários, Exégesis (cf. nota 2), pp. 245-261, esp. p. 247ss.
[3] J. L. Austin, How to do Things with Words (Harvard Univ. Press, Mass 1975);           J, R. Searle, An Essay in the Philosophy of Language (CUP, Cambridge 1969)
[4] O livro de Siraque ou Eclesiástico leva o nome de seu autor, mas no texto gre­go (da LXX) é Jesus, filho de Siraque (50.27; 51.30), no hebraico (canônico) é seu filho Simeão. O prólogo literário do tradutor diz ser do seu avó Jesus (v. 6). Essa dupla tradição é significativa.

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