Na semiótica diz-se que o
sentido não é algo "objetivo" e palpável que está no texto em estado
puro, de modo que o exegeta pudesse encontrá-lo graças a sua habilidade
técnica e seus recursos filológicos e históricos. Se fosse assim, bastaria
descobrir o sentido de um texto. Assim, quando há muitas interpretações,
todas menos uma estariam erradas. A decisão sobre qual é a verdadeira viria de
uma "autoridade" extratextual.
Em última instância, este
esquema supõe que o sentido de um texto coincide com a intenção de seu autor e
que o leitor atual repetirá a leitura que fizeram os primeiros destinatários. E
assim nos atolamos no "historicismo" exegético. E o que é pior, a
mensagem resulta atrofiada e não pode desprender-se em novas leituras
criativas. Talvez até deixe de ser mensagem.
O processo da reinterpretação
é, sem dúvida, tão pujante que as tentativas de "fixar" o sentido de
um texto bíblico acabaram terminando em fórmulas que, com o tempo, por sua vez
necessitam ser relidas, o que significa que a pretensão de fechar o
sentido de um texto é vã e irreal.
De fato, toda leitura é produção
de um discurso e, portanto, de um sentido, a partir do texto. Não se lê um
sentido, mas sim um texto, um relato numa operação que coloca em ação a competência
deste, estudada pela semiótica. Desta maneira, o texto se abre para diferentes
organizações seletivas. Por um lado, a mesma análise estrutural do relato
(programa narrativo: ações, funções) e do discurso (eixos semânticos, quadrado
semiótico, verificação, etc.[1], enquanto organização
de um sentido em meio a outras possibilidades das palavras ou temas de uma
determinada sociedade ou cosmovisão não dá resultados matemáticos senão que se
diferencia segundo distintas combinações efetuadas. Acontece que a linguagem
mesma combina tantos elementos sêmicos que nenhuma análise pode manifestá-los
por completo.
Como já assinala J.
Greimas, a pluralidade de leituras sugeridas pela prática semiótica não se deve
ao fato de que um texto seja ambíguo, mas sim que é suscetível de dizer muitas
coisas ao mesmo tempo.[2] E isto apesar de que a
análise estrutural não é propriamente a interpretação do texto, mas tão-somente
uma etapa preparatória.
Por isso acontecem, por
outro lado, no nível propriamente interpretativo, leituras que se fazem a
partir de diversas disciplinas. Um mesmo texto pode ter uma leitura
fenomenológica, histórica, sociológica, psicológica, literária, teológica e
outras mais. Cada uma das leituras do mesmo relato é uma produção de um discurso
a partir desse texto. Isso é possível porque o discurso coloca em jogo uma
pluralidade de códigos que cada leitura seleciona e organiza. Por sua vez, as
leituras feitas a partir daqueles níveis não são exclusivas de um
intérprete que descobre o sentido. Cada leitura é uma produção de
sentido. Já sabemos que o autor "morre" em benefício daquilo que ele
cria como texto: este inscreve em si mesmo - enquanto estrutura de códigos - a
instância de produção e a instância de leitura e interpretação. Em outras
palavras, faz-se polissêmico, mesmo olhando somente a partir do ponto de vista
da semiótica. Tem várias possibilidades de sentido, que afloram quando se o lê
selecionando os códigos nele armazenados. Se tiver experiência na leitura de
textos, o leitor pode tomar consciência de que o fenômeno da leitura é assim.
Porém, para completar
nossas observações, poderíamos exemplificá-las com uma passagem bíblica.
Tomemos por exemplo Jo. 1.35-51. Quanto se tem dito sobre este texto nos
comentários exegéticos e quanta inspiração tem recebido a prática cristã do
seguimento a Jesus! Sempre se pode voltar ao texto e uma ou outra vez produzir
sentido. Uma maneira de fazê-lo consiste em identificar os diferentes códigos
que se entrecruzam nesta perícope. Tomemos o relato em sua forma atual e
isolemos os papéis temáticos à medida em que vão entrando em cena. "No dia
seguinte" liga com o relato anterior (v. 29, que, por sua vez, remete ao
"quando" do v. 19) e se repete no v. 43 para então completar-se com
a expressão "três dias depois" de 2.1. Este código, que parece
artificial, vai tecendo uma teologia da primeira semana da nova criação,
na qual o Logos é preexistente (Jo. 1.1) como a Palavra na criação do mundo
(Gn. 1.1 na releitura do Targum). Este tema não está dito em uma fórmula
assim como o acabamos de descrever, porém através da estrutura do relato;
estrutura esta que, por sua vez, se combina com os outros códigos de maneira
tal que mutuamente se dão sentido. Este é o jogo do relato.
Logo segue uma situação
de encontro humano: João encontra dois discípulos seus (v. 35b). Estes logo se
encontram com Jesus (v. 39). Um deles, André, encontra-se com seu irmão Simão
(v. 41a) e lhe testemunha que "encontramos o Messias" (v. 41
b). No v. 43 começa uma nova série de encontros: Jesus com Felipe, logo em
seguida, este com Natanael e lhe diz: "encontramos aquele de quem
escreveram... ," (v. 45). No final de cada série, o "encontrar"
oscila entre o físico e o espiritual, sendo enfatizado o segundo com o sentido
de "reconhecer" (o Messias, aquele de quem escreveram Moisés...). Tal
"encontro" somente é possível em um plano superior.
Muito bem, este
deslocamento também se dá com outros códigos. Notável é o visualizar (ver,
fixar-se) que; a partir de um simples plano corporal (vv. 36, 38, 39 x 2, 42,
46, 47, 50) até outro mais profundo (w. 48, 50 "verás coisas
maiores"), termina com um "ver" teofânico (v. 51 ). É evidente
que este motivo, nas seqüências seguintes, liga-se com o da aceitação dos
sinais (cf. 2.1 1 e os outros relatos de milagres). Os sinais efetivamente
"são vistos". Este "ver" joanino remete à fé, não em sua
dimensão física (cf. v. 50 e seu correlato de 20.29),[3] mas sim porque a encarnação da Palavra
mediatiza as realidades da fé através das coisas humanas. Por isso há em João
tanta relevância no tema da fé no Enviado.
No nosso relato é visível
também o código onomástico (há abundância de nomes próprios), em especial da
dupla menção de "Jesus", definido como o filho de José, o de Nazaré
(v. 45). Bem, no texto total do quarto evangelho, os personagens vão recebendo
títulos ou identificações de valor teológico. Assim temos, portanto, o código
das identificações, provavelmente o mais significativo neste lugar. Jesus é
"cordeiro de Deus" (v. 36), "mestre" (v. 38, que mantém a
forma hebraica rabbi para inseri-lo na tradição magisterial judaica e
não confundi-lo com um didáskalos grego), "messias" (v. 41 ),
"aquele de quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas (v. 45),
"filho de Deus/ rei de Israel" (v. 49), "Filho do homem"
(v. 51 ).
Este número de seis
identificações, que preparam para relatos posteriores, já é importante como
simples registro. Isso, porém, não é tudo. Além disso estão dispostos nos
lugares certos. Abrem e fecham o relato total dos w. 35-51. Cada série,
presidida pela referência temporal "no dia seguinte" (w. 35-42 e
43-51 ), contém três identificações de Jesus e outra de um agente humano:
Simão = Cefas/pedra, na primeira; Natanael = verdadeiro israelita, na segunda
(w. 41 e 47). Na segunda série, as identificações de Jesus se contrabalançam
com o "sentido" do AT e de Natanael como verdadeiro israelita,
referência evidente ao "sentido" de Israel.
Por fim, existe um código
de movimento (ir, vir, seguir: w. 37, 38, 39, 40, 43, 46) que remarca o
seguimento a Jesus e que, por sua vez, semanticamente se contrapõe, porém
teologicamente se complementa como o "ficar/permanecer" do v. 39.
Este em outro nível, prepara o ménein ou "permanecer" em
Jesus, tão tipicamente joanino.
Pode-se, todavia,
explorar ainda mais este relato tão bem "tecido" por diferentes códigos
e tão fecundo à luz da semiótica. Manifesta-se aí a aventura de ler um texto
como produção inesgotável de sentido e, portanto, como recriação constante da
mensagem. Na parte II abordaremos outros caminhos de exploração da mensagem de
um texto reforçados pela contribuição da semiótica.
[1] Para estes termos, cf. Grupo de Entrevernes Análisis
semiófico de los textos. Introducción-Teoria-Práctica (Cristiandad, Madrid
1982); Id., Signos y parábolas. Semiótica y texto evangélico. (ib.
1979); Vários, Iniciación en el análisis estructural (Verbo Divino,
Estella 1980).
[2] Cf. Signos y parábolas (nota anterior)
p. 236.
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