Rumo a Uma Filosofia Bíblica de Ministério


Como se compara ao modelo bíblico um ministério norteado por marketing? Estando sob a tutela de Paulo, como teria Timóteo sobrevivido, se tivesse seguido os conselhos dos mercadores do século XX?

Encontramos uma resposta meticulosa a essa pergunta nas duas epístolas que Paulo escreveu a Timóteo, no Novo Testamento. Paulo havia sido o mentor pessoal daquele jovem pastor, mas Timóteo enfrentou provações severas ao receber o encargo de liderar a igreja em Éfeso, não se deixando envolver pelo pecado e erro. Timóteo relutou com medo e fraqueza humana. Certamente se sentiu tentado a amenizar a sua pregação em face da perseguição. Por vezes, pareceu envergonhado do evangelho. Foi necessário que Paulo o relembrasse a permanecer ousadamente firme por causa da fé, ainda que isto implicasse em sofrimento: “Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos a favor do evangelho, segundo o poder de Deus” (2 Tm 1.8). As duas ricas epístolas de Paulo a Timóteo delineiam uma filosofia de ministério que desafia a sabedoriaprevalecente em nossos dias.
Na primeira epístola, Paulo instruiu a Timóteo que ele deveria:
*     Corrigir os que ensinavam falsas doutrinas, exortando-os a buscarem um coração puro, uma boa consciência e uma fé sem hipocrisia (1.3-5).
*      Combater em favor da verdade divina e dos propósitos de Deus, mantendo sua própria fé e boa consciência (1.18-19).
*     Orar pelos perdidos e levar os homens da igreja a fazerem o mesmo (2.1-8).
*    Convocar as mulheres da igreja a desempenharem o papel de submissão, dado por Deus, e a criarem filhos piedosos, tomando-se exemplos de fé, amor e santidade, com bom senso (2.9-15).
*      Escolher com diligência líderes espirituais para a igreja, com base na capacitação, piedade e virtude deles (3.1-13).
*     Identificar a fonte do erro e os que o ensinavam, expondo isso à igreja (4.1-6).
*     Alimentar-se constantemente com as palavras da Escritura e seu ensino fiel, evitando todos os mitos e doutrinas falsas (4.6).
*     Disciplinar a si mesmo tendo em vista a piedade (4.7-11).
*     Ordenar e ensinar com ousadia a verdade da Palavra (4.12).
*      Ser um modelo espiritual de virtude que todos pudessem seguir (4.12)                       .
*      Ler, explicar e aplicar com fidelidade as Escrituras, em público (4.13,14).
*      Em sua própria vida, progredir no assemelhar-se a Cristo (4.15,16).
*       Ser gracioso e gentil ao confrontar o pecado de seu povo (5.1,2).
*       Demonstrar especial consideração e cuidado para com as viúvas (5.3-16).
*       Honrar os líderes da igreja que se mostravam fiéis e trabalhavam arduamente (5.17-21).
*      Escolher com grande cuidado os líderes eclesiásticos, certificando-se de serem eles maduros e provados (5.22).
*     Cuidar de sua própria condição física, de forma a ser forte para servir (5.23).
*      Ensinar e pregar os princípios da verdadeira piedade, ajudando seu povo a discernir entre esta e a mera hipocrisia (5.24-6.6).
*     Fugir do amor ao dinheiro (6.7-11).
*     Seguir a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão (6.11).
*     Combater, em favor da fé, contra todos os inimigos e ataques (6.12)              .
*        Guardar todos os mandamentos do Senhor (6.13-16).
*       Instruir os ricos a fazerem o bem, a serem ricos em boas obras e generosos (6.17-19).
*       Guardar a Palavra de Deus como um legado santo e um tesouro(6.20,21). Na segunda epístola, Paulo relembrou a Timóteo que ele deveria:
*       Preservar estimulante e útil o dom de Deus a ele confiado (1.6).
*       Não ser tímido, mas poderoso (1.7).
*      Nunca se envergonhar de Cristo ou de alguém que O serve(1.8-11).
*      Apegar-se à verdade e guardá-la (1.12-14).
*      Ter um caráter firme (2.1).
*      Ser um mestre da verdade apostólica, a fim de reproduzir seu caráter em homens fiéis (2.2).
*      Suportar voluntariamente as dificuldades e a perseguição e ao mesmo tempo esforçar-se ao máximo por Cristo (2.3-7).
*      Manter os olhos sempre em Cristo (2.8-13).
*      Liderar com autoridade (2.14).
*      Interpretar e aplicar as Escrituras com exatidão (2.15).
*      Evitar conversas inúteis que só conduzem à impiedade (2.16).
*      Ser um instrumento de honra, separado do pecado e útil ao Senhor (2.20,21).
*     Fugir das paixões da mocidade e seguir a justiça, a fé e o amor(2.22).
*     Recusar-se a ser atraído a disputas filosóficas e teológicas (2.23).
*     Não ser contencioso, mas brando, ensinável, gentil e paciente, até mesmo quando injustiçado (2.24-26).
*     Encarar tempos difíceis com um profundo conhecimento da Palavra de Deus (3.1-15).
*     Compreender que a Escritura é a base e o conteúdo de todoministério legítimo (3.16,17).
*      Pregar a Palavra, a tempo e fora de tempo, corrigindo, repreendendo e exortando com muita paciência e instrução (4.1,2).
*    Mostrar-se sóbrio em todas as coisas (4.5).
*    Suportar as aflições (4.5).
*   Fazer o trabalho de evangelista (4.5).
Nessa lista, nada sugere uma filosofia norteada por marketing. De fato, é impossível harmonizarmos a maioria das ordens dadas às teorias que são tão populares em nossos dias. Resumindo tudo em cinco categorias, Paulo ordenou a Timóteo: 1) ser fiel em sua pregação à verdade bíblica; 2) ser ousado em expor e refutar o erro; 3) ser um exemplo de piedade para o rebanho; 4) ser diligente  e trabalhar arduamente no ministério; e 5) estar disposto a sofrer dificuldades e perseguições por causa de seu serviço para o Senhor.
É lógico que o significado prático destas verdades vai além daqueles que são pastores. Todo cristão é chamado a uma vida de ministério e deve seguir o exemplo dos pastores (1 Tm 4.11-12). Portanto, as instruções de Paulo a Timóteo contêm princípios que se aplicam a cada crente em todos os ministérios. Quando a igreja está em declínio, isto significa que multidões de pessoas são conduzidas juntamente no declínio espiritual. “Falsa doutrina e mundanismo” na igreja afetam cada membro do corpo. As instruções de Paulo a Timóteo não são, de forma alguma, apenas para a “elite” da liderança cristã ou do ministério pastoral. Isto corresponde a dizer que a filosofia de ministério — e cada questão abordada neste livro — deve ser a preocupação de cada cristão. Essas questões não são, de forma alguma, algo de domínio exclusivo do clero profissional.
Há pouco tempo, li cerca de uma dúzia dos livros mais recentes sobre ministério e crescimento de igreja. A maioria desses livros continha longos capítulos devotados à definição de uma filosofia de ministério. Nenhum deles, entretanto, se referiu às instruções que Paulo tão cuidadosamente delineou a Timóteo. Aliás, nenhum deles extraiu qualquer elemento de sua filosofia de ministério fundamentando-se nas epístolas pastorais do Novo Testamento! A maioria extraiu seus princípios de empreendimentos modernos, de técnicas de marketing, de teorias de gerenciamento, da psicologia e outras fontes similares. Alguns procuraram ilustrar seus princípios usando “anedotas bíblicas”. Mas nenhum deles extraiu das Escrituras a sua filosofia de ministério — embora grande parte do Novo Testamento tenha sido explicitamente escrita para instruir pastores e igrejas nessas questões!

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