O pragmatismo como filosofia de ministério ganhou ímpeto a partir do movimento de crescimento de igreja que floresceu nos últimos cinquenta anos. Donald McGravan, o pai do moderno movimento de crescimento de igreja, foi um pragmatista descarado. Ele afirmou:
Criamos métodos e políticas missionárias à luz do que Deus abençoou e à luz daquilo que Ele, obviamente, não abençoou. A indústria chama isso de “modificar operações à luz da realimentação”. Nada atrapalha tanto as missões transculturais quanto os métodos, instituições e políticas que deveriam atrair as pessoas a Cristo, mas não o fazem; que deveriam multiplicar as igrejas, mas não o fazem. Ensinamos os homens a serem implacáveis em relação ao método. Se um método não contribui para a glória de Deus e para a expansão da igreja de Cristo, jogue-o fora e arranje algo que o faça. Quanto aos métodos, somos ousadamente pragmáticos; a doutrina é algo diferente.
Como jovem missionário na índia e sendo filho de missionários,McGravan percebeu que era comum ver organizações missionárias labutar na índia, durante muitos anos, e colher pouco ou nenhum fruto. A sua própria agência missionária plantou apenas vinte ou trinta pequenas igrejas em várias décadas de esforço missionário.10McGravan, então, resolveu desenvolver uma estratégia para missões que observasse quais métodos produziam resultados e quais não funcionavam. “De acordo com sua própria declaração no prefácio de um livro de sua co-autoria, na década de 30, ele se dedicou a ‘descartar teorias de crescimento de igreja que não têm bom êxito e a aprender e praticar modelos produtivos…”’
O pragmatismo de McGravan parece ter sido motivado por uma legítima preocupação com mordomia. Ele “ficou assustado ao perceber que muitos dos recursos de Deus — humanos e financeiros
— estavam sendo usados, sem que ninguém questionasse se o reino de Deus estava avançando ou não, através dos programas que elesestavam sustentando”. Mas o pragmatismo acabou se tomando a base filosófica para quase tudo que McGravan ensinou, e isso, por sua vez, tornou-se a agenda de todo o movimento moderno de crescimento de igreja.
McGravan fundou o Instituto de Crescimento de Igreja, que em 1965 se uniu à Escola Fuller de Missões Mundiais. A partir dali, os preceitos do pragmatismo têm alcançado praticamente todos os campos missionários do mundo.
C. Peter Wagner, professor de crescimento de igreja na EscolaFuller de Missões Mundiais, é o mais conhecido dos alunos de DonaldMcGravan. Atualmente, Wagner é o porta-voz mais prolífico, se não o mais influente, do movimento de crescimento de igreja. Ele escreveu acerca do pragmatismo inerente ao movimento:
O Movimento de Crescimento de Igreja sempre enfatizou o pragmatismo, e ainda o faz, embora muitos o tenham criticado. Não é o tipo de pragmatismo que compromete a doutrina ou a ética ou que desumaniza as pessoas, usando-as como instrumentos para um determinado propósito. Entretanto, é um tipo de pragmatismo consagrado que examina impiedosamente os programas e as metodologias tradicionais, questionando-as com severidade. Se algum tipo de ministério em uma igreja não está atingindo os alvostencionados, o pragmatismo consagrado diz que há algo de errado e precisa ser corrigido.
Wagner, como a maioria dos envolvidos no movimento de crescimento de igreja, reivindica que o “pragmatismo consagrado”, que ele advoga, não permite comprometimento doutrinário ou ético. “A Bíblia não nos consente pecar, a fim de que a graça seja mais abundante, ou não permite usarmos quaisquer meios que Deus tenha proibido, a fim de alcançarmos os fins que Ele nos recomendou”, Wagner destaca corretamente.
“Mas, com esta estipulação”, ele continua, “temos de perceber nitidamente que os fins, de fato, justificam os meios. O que mais poderia justificar os meios? Se o método que estou utilizando alcança o alvo a que me propus, por essa razão é um bom método. Se, por outro lado, o método não está atingindo o alvo, como posso justificar-me por continuar utilizando-o?”
Isso é verdade? Não, com toda certeza. Especialmente se “o alvo a que me propus” é um alvo numérico sem o aval bíblico ou se “o método que não está atingindo o alvo” é a pregação cristalina da Palavra de Deus. É precisamente esta maneira de pensar que está retirando a exposição bíblica do ministério cristão, substituindo-a por espetáculos de variedades.
Um “best-seller” recente dá um passo além:
É… crucial termos em mente o princípio da comunicação cristã: o auditório, e não a mensagem, é soberano. Se nossa pregação almeja fazer com que as pessoas parem, em meio a uma agenda confusa, e reflitam sobre o que lhes estamos dizendo, nossa mensagem terá de se adaptar às necessidades do auditório. Quando pregamos algo que se baseia na proposição do pegue-ou-largue, em vez de uma sensibilidade e resposta às necessidades das pessoas, estas acabarão, invariavelmente, rejeitando nossa mensagem.16
O que teria acontecido se os profetas do Antigo Testamento tivessem endossado essa filosofia? Jeremias, por exemplo, pregou durante quarenta anos sem ver qualquer resultado significativo. Pelo contrário, seus conterrâneos ameaçaram matá-lo, se não parasse de profetizar (Jr 11.19-23); sua própria família e amigos conspiraram contra ele (12.6); por não ser permitido casar-se, teve de sofrer uma solidão agonizante (16.2); houve conspirações secretas para matá-lo (18.20-23); foi ferido e colocado no tronco (20.1,2); foi espionado por amigos que buscavam vingança (v. 10); foi consumido por desgosto e vergonha, chegando a amaldiçoar o dia em que nasceu (v. 14-18); e, por fim, foi injuriado e considerado um traidor de sua própria nação (37.13,14). Ele foi açoitado e atirado em um calabouço, passando ali muitos dias sem comer (v. 15-21). Se um etíope não tivesse intercedido em seu favor, Jeremias teria morrido ali. Por fim, a tradição ensina que ele foi exilado para o Egito, onde foi apedrejado e morto por seu próprio povo. Jeremias não teve convertidos a apresentar como fruto de uma vida toda de ministério.
Suponhamos que Jeremias tivesse assistido um seminário sobre o crescimento de igreja e aprendido uma filosofia pragmática de ministério. Você acha que isso teria mudado seu estilo de ministério confrontador? Podem imaginá-lo apresentando um show de variedades ou utilizando o humor para tentar conseguir o afeto das pessoas? Ele poderia ter aprendido como reunir uma multidão apreciável, mas certamente não teria realizado o ministério para o qual Deus o chamara.
O apóstolo Paulo também não usou um método baseado em técnicas de marketing, embora alguns autodenominados experts tenham procurado mostrá-lo como modelo para o neopragmatismo. Um dos que advogam as técnicas de marketing afirma: “Paulo foi o maior de todos os peritos em táticas. Constantemente ele estudava as estratégias e táticas para identificar as que lhe permitiriam atrair o maior número de ‘candidatos’ e conseguir o maior número possível de conversões”.17 É claro que a Bíblia nada diz em respaldo a essa afirmação. Pelo contrário, o apóstolo Paulo evitou métodos engenhosos e artifícios que conduzissem as pessoas a falsas conversões, através da persuasão carnal. Ele mesmo escreveu:
Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e, sim, no poder de Deus (1 Co 2.1-5).
À igreja em Tessalônica ele relembrou:
Pois a nossa exortação não procede de engano, nem de impureza, nem se baseia em dolo; pelo contrário, visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos, não para que agrademos a homens, e, sim, a Deus, que prova o nosso coração. A verdade é que nunca usamos de linguaguem de bajulação, como sabeis, nem de intuitos gananciosos. Deus disto é testemunha. Também jamais andamos buscando glória de homens, nem de vós, nem de outros (1 Ts 2.3-6).
A exatidão bíblica é o único critério pelo qual devemos avaliar nossos métodos de ministério.
Qualquer filosofia de ministério do tipo “fins-que-justificam-os- meios” inevitavelmente comprometerá a doutrina, a despeito de qualquer proposição em contrário. Se a eficácia se tomar o indicador do que é certo ou errado, sem a menor dúvida nossa doutrina será diluída. Em última análise, o conceito de verdade para um pragmatista é moldado pelo que parece ser eficaz e não pela revelação objetiva das Escrituras.
Uma consideração da metodologia do movimento de crescimento de igrejas revela como isso acontece. O movimento estuda todas as igrejas que estão crescendo, até mesmo aquelas que possuem doutrinas falsas no âmago de seu ensino. Igrejas denominacionais liberais, seitas carismáticas extremadas e ditaduras de hiper-fundamentalismomilitante são observadas para o escrutínio dos especialistas. Às vezes, princípios de crescimento são tirados até mesmo das igrejas dos mórmons ou dos Salões do Reino das Testemunhas de Jeová. O especialista em crescimento de igreja procura características comuns a todas as igrejas que estão crescendo e advoga quaisquer métodos que pareçam estar produzindo resultados. E a questão principal é sempre o crescimento numérico.
Será que devemos crer que o crescimento em uma igreja não-cristã comprova que Deus está ali operando? Deveríamos utilizar a metodologia de grupos religiosos que corrompem o evangelho? Não é justo questionarmos se qualquer crescimento resultante de tais métodos é ilegítimo, sendo engendrado por meios carnais? Afinal, se um método demonstra ser bem-sucedido tanto para uma determinada seita quanto para o povo de Deus, não existe razão para supormos que os resultados positivos são sinônimo da bênção de Deus.
Algo que está completamente ausente da maior parte da literatura sobre crescimento de igreja é uma análise crítica da deficiente plataforma doutrinária sobre a qual muito do crescimento da igreja contemporânea é construído. Certo autor, falando acerca de Peter Wagner, disse:
Wagner não faz avaliação negativa de quem quer que seja. Ele fez sua carreira a partir da descoberta do que é bom em igrejas que estão crescendo e em ratificar isso, sem fazer muitas perguntas críticas. Isso lhe permite apresentar como modelos de vida de igreja não apenas as Igrejas Vineyard, de John Wimber, mas também a Catedral de Cristal, de Robert Schuller, toda a denominação Batista do Sul e qualquer outra igreja que esteja em crescimento.18
O fato de uma igreja estar crescendo é freqüentemente confundido com a aprovação divina. Afinal, as pessoas raciocinam, por que ser crítico sobre qualquer ensinamento que Deus está abençoando com crescimento numérico? Não é melhor tolerar as imperfeições doutrinárias e os lapsos de ortodoxia, por amor ao crescimento e à unidade? Desta forma, o pragmatismo amolda e dá forma à perspectiva doutrinária das pessoas.
O próprio Peter Wagner, por exemplo, anteriormente um não- carismático, mudou seu ponto de vista a fim de aceitar o movimento de sinais e maravilhas e o movimento da “Terceira Onda”, por razões que são amplamente pragmáticas. E ele é bastante franco a esse respeito:
Orgulho-me de estar entre os que advogam o evangelismo de poder como uma ferramenta importante para o cumprimento da grande comissão em nossos dias. Uma das razões por que estou tão entusiasmado é que o evangelismo de poder está produzindo resultados. Em geral, o evangelismo mais eficaz do mundo contemporâneo é o que vem acompanhado por manifestações de poder sobrenatural.
É óbvio, então, que o pragmatismo de Wagner moldou a sua doutrina e não vice-versa.
Ele admite isso. Declara que a metodologia do movimento de crescimento de igrejas é “fenomenológica” e não teológica. Wagner admite que essa abordagem “pode parecer totalmente subjetiva para muitos teólogos tradicionais”. E continua: “Como ponto de partida, o crescimento de igreja sempre focaliza o ‘é’ antes de olhar para o ‘deveria ser’… O que os cristãos experimentam acerca da obra de Deus no mundo e em suas vidas nem sempre é precedido de cuidadosas racionalizações teológicas. Muitas vezes, a sequência é exatamente o oposto: a teologia é moldada pela experiência cristã”.
Sendo este o caso, não é sem sentido a afirmação de Wagner ao falar que seu pragmatismo “não é do tipo que compromete a doutrina”? Afinal, se a experiência sugere que sinais e maravilhas são ferramentas eficazes para o crescimento de igreja e se é legítimo permitir que nossa experiência molde nossa teologia, é lógico que alguém modifique sua doutrina — como fez o próprio Wagner — para acomodar-se a alguma observação pragmática e heurística.
Deve-se, então, simplesmente encontrar uma forma de se reinterpretar ou adaptar as Escrituras a fim de que estas se encaixem em qualquer esquema doutrinário que o pragmatismo pareça impor.
É tolice pensar que alguém pode ser bíblico e pragmático, ao mesmo tempo. O pragmatista deseja saber o que produz resultados. O pensador bíblico se importa tão-somente com o que a Bíblia ordena. As duas filosofias se opõe mutuamente no nível mais básico.
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