“Há dois dias, minha filha Laura morreu.” Assim começou o mais difícil sermão que já preguei. Nessa mensagem, intitulada: “Deus no banco das testemunhas”, coloquei-me no lugar de Jó, que, quando assaltado por uma tragédia pessoal horrível, declarou: “Mas desejo falar ao Todo-poderoso e defender a minha causa diante de Deus” (Jó 13.3).
Naquele domingo, preguei um diálogo entre mim, como o promotor, e Deus, como o advogado de defesa. Por nove meses, assistira, sem poder ajudar, à minha filha de três anos perder suas habilidades mentais e físicas para um tumor cerebral maligno e eu tinha uma causa forte contra Deus.
Amigos questionaram a sabedoria da minha decisão em pregar tão cedo após a morte de minha filha. Eu poderia resistir a isso? A congregação poderia lidar com o impacto emocional?
Mas se eu não usasse minha vida pessoal como a base da pregação durante esse tempo de crise, eu teria uma platéia ou uma mensagem para o tempo de sofrimento de alguma outra pessoa?
Aqueles que nos advertem contra nos tornarmos muito pessoais na pregação suscitam perguntas necessárias. Um pregador tem o direito de levar sua própria confusão e sofrimento para o púlpito? Esse tipo de transparência não foca mais no pregador do que no Senhor? A exposição pessoal não transforma o púlpito em uma novela de TV e denigre o ministério da proclamação a favor do auto-engrandeci-mento? Certamente, a discrição precisa ser usada quanto ao que o pregador diz sobre questões pessoais no púlpito. Entretanto, em resposta a essas advertências, uma pergunta contrária precisa ser feita: um pregador humano não deveria ser humano na pregação?
Aquele sermão pregado dois dias após a morte de minha filha foi umas das muitas mensagens compostas na beira da cama da minha filha, no hospital e no seu leito de morte em nossa casa. Aqueles sermões constituíram uma coleção de sentimentos e convicções tão íntimos quanto orações particulares. Preciso confessar que pouca exegese bíblica foi empenhada neles. Minha própria vida se tornou minha fonte primária. Minhas orações e reflexões se tornaram meus comentários.
Enquanto pregava em meio à minha dor, eu não estava consciente de aspectos particulares de meus sermões que mais tarde provaram ser curativos e terapêuticos para minha congregação. Ao olhar para trás, entretanto, posso identificar quatro características da pregação que devem estar presentes sempre que eu tentar pregar em meio ao sofrimento.
A vulnerabilidade encabeça a lista. Embora essa tenha se tornado uma palavra usada excessivamente no jargão do ministério pastoral, ela não tem substituto apropriado. Expressar a dor abertamente no púlpito não se constitui em um pecado profissional para os pregadores. Em várias ocasiões, eu não pude conter as lágrimas. Controlar minhas emoções ligadas à dor não eram problema algum quando me fitava no espelho. Mas, de alguma forma, meu controle desaparecia quando eu estava no púlpito olhando para rostos que visivelmente sofriam comigo. Era dolorido para minha congregação me ver chorar, embora fosse tremendamente terapêutico para eles e para mim. Um membro cujos anos da juventude foram obscurecidos pelo abuso de drogas se confiou a mim: “Suas lágrimas me ajudaram a encarar algumas coisas doloridas na minha vida que eu tentei esconder atrás de um muro falso de coragem”.
O melhor recurso para pregar em meio à minha própria dor eram os Profetas do Antigo Testamento e a Literatura Sapiencial. Vasculhei esses escritos profundamente, pois achei a sua fé a melhor reflexão sobre as injustiças da vida, colocadas ao lado da realidade de Deus e da futilidade de tentar categorizá-lo e controlá-lo.
Arthur Gossip, um pregador escocês do começo do século XX, perdeu sua esposa subitamente. Depois do seu retorno ao púlpito após a morte dela, ele pregou: “Quando a vida desaba, o que fazer nesse momento?”. Naquela mensagem, Gossip declarou que não entendia essa nossa vida. Mas mais difícil de entender para ele era como as pessoas que se deparam com a perda podiam abandonar a fé cristã. “Abandoná-la para quê?”, perguntou ele. Ao falar da pior tempestade de sua vida, ele concluiu: “Vocês, pessoas na luz do sol, podem acreditar na fé, mas nós, nas sombras, precisamos acreditar nela. Não temos nada além disso”.
Uma segunda característica necessária para a pregação em meio ao sofrimento pessoal é a honestidade. A honestidade faz com que a vulnerabilidade preste contas, e é preciso acrescentar a seguinte advertência: Não devemos falar de nossos conflitos do púlpito a não ser que os pensamentos e sentimentos expressos real-mente pertençam a nós. Se a esperança e a força nos caracterizam, deixemos que sejam conhecidas. Entretanto, se a esperança e a força nos abandonaram, então não devemos fazer de conta que as possuímos. As pessoas enxergarão através de nosso verniz protetor e, portanto, duvidarão de nossa integridade.
Assim como o luto precisa ter acesso ao púlpito, também devemos dar espaço à raiva e à dúvida. Aqui empaquei. Eu havia usado freqüentemente a soberania de Deus como uma desculpa para deixar sem explicação as coisas inexplicáveis da vida. Agora, quando falei de esperança, descobri que estava ignorando as dúvidas que sentia tão fortemente. Não querendo encarar honestamente a minha raiva interna para com Deus, esquivei-me quando surgiram oportunidades para chamar a atenção para a minha indignação em público do púlpito. No ano seguinte à morte da minha filha, escrevi um livro que foi o meu “diário do púlpito” durante aqueles nove meses da angústia da minha família. Um amigo conselheiro me ofereceu este comentário depois de lê-lo: “Enquanto eu apreciava as percepções que você compartilhou, penso que você deixou Deus fora do banco das testemunhas muito cedo. A sua raiva não teve espaço de apresentar plenamente a sua causa contra Deus”.
Em retrospecto, acredito que fui muito educado com Deus. Com relação a isso, cheguei a duas convicções: Primeiro, Deus consegue lidar com a raiva, mesmo a de um pregador. Segundo, a congregação precisa saber como o pregador lida com esses sentimentos de raiva que todos nós temos em relação a Deus em tempos de tragédia. Quando a crise surge, a raiva para com Deus é uma das emoções mais honestas que sentimos. Quando descrevemos como nós, pastores, sentimo-nos em tais situações, validamos o sentimento para outros e também provemos um modelo de como lidar com ele.
Embora a expressão de minha dor estivesse mascarada em minha pregação, poucas pessoas perceberam isso. Elas me disseram que aquelas perguntas em chamas que eu lancei a Deus no sermão imediatamente após a morte de Laura proveram alguma libertação emocional a elas.
Uma mãe, que leu aquele sermão aproximadamente dois anos depois que eu o preguei, escreveu para expressar sua gratidão. Ela disse que eu havia lhe oferecido um convite para encarar a raiva que ela ainda carregava sobre a perda do filho dela três anos antes. O ponto principal de sua descoberta foi que, se um ministro podia ficar furioso com Deus, não havia problema em ela fazer o mesmo. Isso a ajudou a começar a processar a sua dor.
Um terceiro elemento na pregação em meio ao sofrimento pessoal é a esperança. A esperança permanece como o presente supremo que um pregador pode oferecer à congregação enquanto fala dos vales escuros. Em sua forma mais simples, a esperança redentora de Deus significa que do mal pode vir o bem.
Em outro sermão, após a morte da minha filha, observei a vida de José e Paulo. José disse aos seus irmãos: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem” (Gn 50.20). Apesar da dor de seu espinho na carne, Paulo ouviu Deus dizer: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9).
No nascimento de Laura, testemunhei da serenidade do momento em que ela foi colocada nos braços quentes da sua mãe. No seu enterro, testemunhei da severidade do momento em que ela foi colocada nos braços frios do túmulo. Ao refletir sobre a minha própria experiência e aquela de José e Paulo, concluí uma mensagem sobre como se apegar na esperança dizendo: “Nossa fé é construída sobre uma misericórdia severa — um homem inocente que foi executado em uma cruz. Que pessoa, na época, pensou que a morte de Jesus fosse qualquer coisa se não uma tragédia sem sentido e severa? Quem agora a veria como qualquer coisa senão a misericórdia de Deus atuando a nosso favor? Quando tantas pessoas em conflito procuram a ajuda de Deus unicamente para livrá-los dos eventos severos, faríamos bem em procurar a misericórdia de Deus para nos ensinar os seus princípios por meio desses eventos severos. Essas últimas obras de Deus, as misericórdias severas, tornam-se as permanentes”.
Próximo ao tempo da morte de Laura, um amigo me mostrou parte de uma poesia de Emily Dickinson que ajudou a mim e a minha congregação olhar para o momento e além dele:
Eu saberei a razão — quando o Tempo tiver acabado —
E quando eu tiver cessado de perguntar a razão —
Cristo explicará cada angústia em particular Na bela sala de aula do céu.
O quarto aspecto necessário é a paciência. A impaciência me instigou a procurar uma explicação rápida e fácil para o sofrimento que sobreveio à minha família. Minha maior tentação no púlpito é ver meu chamado para pregar como uma ordem para oferecer explicações definitivas. Eu me sinto muito mais confortável concluindo um sermão com um inspirador desafio à batalha do que com perguntas não respondidas e talvez irrespondíveis. A tragédia pessoal me ensinou que a resposta ao sofrimento humano não pode ser encontrada imediatamente — se é que ela pode ser encontrada.
Quando um pai é confrontado com o diagnóstico de câncer de seu filho, a pergunta inevitável: “Por quê?”, precisa ser ouvida. Como eu poderia conciliar o câncer de minha filha de três anos com um Deus todo-poderoso, que tem amor infinito, que, conforme acredito, governa este mundo? Em um sermão, chamei a atenção para o porquê do mal e da bondade de Deus mostrando as tentativas clássicas e contemporâneas de resolver o conflito. Pessoas de fé que se deparam com uma injustiça trágica tendem a uma das opções seguintes:
• dualismo, com o seu universo governado por deuses bons e deuses maus, co-iguais
• rebaixamento, em que existe apenas um Deus, mas ele é visto como limitado, poderoso, mas não todo-poderoso, fazendo o melhor que pode diante do mal
• negação, como em religiões como a ciência crista, que nega as realidades cruéis da doença, da morte e do mal
• desespero, que desiste de Deus quando ele não vive à altura de nossas expectativas ingênuas e mágicas dele
• autocondenação, com sua pergunta carregada com culpa: “Deus está me punindo?”.
Entretanto, uma opção final existe, que, conforme acredito, seja a única escolha coerente com a revelação e a realidade. A existência simultânea de Deus e do mal é um dilema insolúvel. Jó, Habacuque e inúmeros outros que afundaram em dor e confusão pessoais tentaram usar a teologia para controlar a situação, mas, no final, nossas explicações humanas acabam de mãos vazias. Entretanto, existe uma graça nesse por que irrespondível, pois ela nos leva ao próprio coração da fé, a confiante espera paciente em Deus.
Lembro-me de uma conversa que tive com um homem algumas semanas depois do sermão em que eu “entrei com uma ação” contra Deus. Essa era uma pessoa compassiva cujo coração ficara comovido com a morte de Laura, e ele também queria uma resposta para o porquê do sofrimento de minha filha. Ele recapitulou uma parte daquele sermão em que eu acusei Deus de se recusar a curar minha filha voluntariamente. Então, ele confessou: “Eu tenho tido conflito com a fé toda a minha vida. Meu conflito com Deus se intensificou com a doença de Laura. Mas agora eu continuo pensando novamente no que você disse sobre nós querermos o controle absoluto de Deus e a liberdade absoluta da vida. Eu nunca pensei nisso dessa forma. Queremos duas coisas de Deus que, por natureza, não podem coexistir. Estou começando a ver que ter fé não significa ter todas as respostas. Fé é agarrar-se em Deus apesar da confusão”.
Que presente maior um pregador pode dar a uma congregação do que um retrato de confiança no Senhor mesmo que o luto e a confusão permaneçam?
Tendo explicado algumas qualidades necessárias da pregação em meio ao sofrimento, preciso oferecer uma palavra de advertência acerca de quando não levar crises ao púlpito. Durante três meses anteriores à morte de Laura, à medida que sua condição deteriorava rapidamente, eu não era capaz de fazer referência a ela no pulpito. Em outros estágios de sua doença, as lágrimas eram algo sob o meu controle. Nesse estágio, entretanto, minhas emoções estavam no limite de tal maneira que eu temia não conseguir recuperar a compostura se as lágrimas começassem a cair. Eu sabia que minha congregação receberia bem as minhas reflexões sobre o estado da Laura, mas quando a dor é muito fresca ou intensa, a sabedoria adverte a evitar referências ã nossa condição pessoal.
Outra ocasião em que não é recomendável pregar é depois que a crise já passou. Eu não percebi que o luto da minha congregação em relação à morte de minha filha não durou tanto quanto o meu. Tendo conduzido inúmeros funerais e tendo me envolvido com o luto de muitas famílias, eu estava bem consciente dos estágios de luto que diferentes pessoas experimentam. Entretanto, quando a pessoa falecida foi a minha filha, eu, de alguma forma, pensei que as regras mudariam. Certamente, outros teriam a mesma intensidade e duração de sentimento que eu trazia! Tal não era o caso.
Depois de um sermão que eu preguei depois de passado muito tempo da minha perda, um membro da igreja disse polidamente à minha esposa: “Eu acho que o Dan falou a respeito da morte de Laura por tempo demais depois da sua morte”.
Logo que ouvi isso, senti que a pessoa estava sendo injusta com os meus sentimentos. Entretanto, agora percebo que o tratamento prolongado de meu luto era injusto para com os sentimentos da congregação. Se o pregador de Eclesi-astes tivesse previsto o tema desse artigo, ele teria acrescentado esta frase à sua descrição dos ciclos da vida: há tempo de pregar em meio ao nosso sofrimento, e há tempo de pregar além dele.
Eu preguei de tal maneira no dia em homenagem aos soldados mortos na guerra, aproximadamente dois anos após a morte de Laura. Eu li uma nota que havia recebido de uma jovem mãe. Ela havia perdido um filho no nascimento e um segundo filho que tinha o mesmo tipo de tumor que levou Laura. Essa mãe incluiu a seguinte oração, que serve como um bom lembrete quando precisamos pregar em meio à nossa própria dor: “Querido Deus, ensine-nos a rir novamente, mas nunca nos deixe esquecer que choramos”.
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