Não é para que nos tornemos importantes que Cristo existe. Antes, nós é que existimos para que ele seja importante, e para que nos alegremos com isso. O objetivo deste livro é entender que as glórias de Cristo são um fim, não um meio. O objetivo da glória de Cristo não é nos tornar ricos ou saudáveis. Cristo é glorioso para que, na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença, possamos nos alegrar nele.
A primeira e extraordinária glória que sustenta todas as outras é a existência eterna de Cristo. Se meditarmos nessa afirmação, conforme é nosso dever, a frágil embarcação de nossa alma adquirirá grande estabilidade. A existência absoluta é, talvez, o maior de todos os mistérios. Reflita sobre o caráter absoluto da realidade. Deve ter existido algo que nunca foi formado. O estudo de eras remotas e longínquas nos leva a um ponto em que nada existia. Alguém teve a honra de ser o primeiro, o que sempre existiu. Ele nunca veio a ser, nunca se desenvolveu. Ele simplesmente era. A quem pertence essa glória absoluta e singular?
A resposta é Cristo, a pessoa que o mundo conhece como Jesus de Nazaré.
O apóstolo João, que escreveu o último livro da Bíblia, recebeu a revelação decisiva. Ele cita as palavras: “Eu sou o Alfa e o Omega”, diz o Senhor Deus, “o que é, o que era e o que há de vir, o Todo-poderoso” (Ap 1.8). Não é Cristo quem diz isso. E o Deus Todo-Poderoso. Ele diz ser o “Alfa” e o “Omega” — a primeira e a última letras do alfabeto grego. No alfabeto, não se pode dizer qualquer coisa (ou nada) antes do alfa. Não existe nenhum “pré-alfa” no alfabeto. Também não se pode dizer qualquer coisa (ou nada) depois do ômega. Não existe nenhum “pós- ômega” no alfabeto.
O mesmo ocorre com Deus e a realidade. Não existe nenhum “pré-Deus” e nenhum “pós-Deus”. Ele está absolutamente presente, quer em tempos remotos, quer em tempos futuros. Ele é a Realidade absoluta. Ele tem a honra de ser o primeiro, o que sempre existiu. A ele pertence essa glória singular.
Este é o significado essencial de seu nome no Antigo Testamento: Yahweh (ou Jeová), formado a partir do verbo “ser”. Quando Moisés quis saber o nome de Deus, o Senhor lhe disse: “… EU SOU O QUE SOU. É isto que você dirá aos israelitas: EU SOU me enviou a vocês” (Ex 3.14; grifos do autor). Esse “Eu Sou” é explicado em Isaías como uma Realidade absoluta e eterna — passada e futura. ‘“Vocês são minhas testemunhas’, declara o Senhor [...] ‘para que vocês saibam e creiam em mim e entendam que eu sou Deus. Antes de mim nenhum deus se formou, nem haverá algum depois de mim’” (Is 43.10; grifos do autor). Ser “Eu Sou” é ser absolutamente o primeiro e o último. Nada “antes”, nada “depois”. Simplesmente “Eu Sou”.
Deus torna isso explícito em Isaías 44.6: “Assim diz o Senhor, o rei de Israel, o seu redentor, o Senhor dos Exércitos: Eu sou o primeiro e eu sou o último-, além de mim não há Deus” (grifos do autor). E ele diz novamente em Isaías 48.12: “Escute-me, ó Jacó, Israel, a quem chamei: Eu sou sempre o mesmo; eu sou o primeiro e eu sou o último” (grifos do autor). Este é o seu nome: Yahweh — aquele que é absoluto, eterno e invencível. Ele possui a glória exclusiva e singular de sempre ter sido, quando nada existia. E nunca haverá nada que dure mais que ele. E isto que significa ser Deus.
E o que isso tem a ver com Cristo, a quem conhecemos como Jesus de Nazaré?
Tudo. Próximo ao fim da revelação, o apóstolo João citou Jesus Cristo: “Eis que venho em breve! [...] Eu sou o Alfa e o Omega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim [...]. Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas…” (Ap 22.12,13,16; grifo do autor). E Cristo quem está falando, não Deus, o Pai. Ora, dois não podem ser “Alfa e Omega”, a menos que sejam um. Dois não podem ser absolutamente “o primeiro e o último”, a menos que sejam um. Mesmo assim, Cristo (que chama a si mesmo de Jesus) reivindica para ele a mesma honra e glória pertencentes a Deus, o Todo-Poderoso (ver também Ap 1.17,18; 2.8).
Cristo assumiu para si o nome exclusivamente glorioso de Deus: “Eu Sou”. “Respondeu Jesus: ‘Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou!”’ (Jo 8.58; grifo do autor). E Jesus diz a seus discípulos, perto do fim de sua vida: “Estou lhes dizendo antes que aconteça, a fim de que, quando acontecer, vocês creiam que Eu Sou” (Jo 13.19; grifo do autor — v. Jo 8.24). Não existe nada maior que um homem possa dizer a respeito de si mesmo. Ou isso é verdade, ou é blasfêmia. Ou Cristo foi Deus, ou não o foi.
João soube discernir: “No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus [...]. Aquele que é a Palavra tornou-se carne [...]. Vimos a sua glória, glória como do Unigénito vindo do Pai…” (1.1,14; grifo do autor). Jesus Cristo, a “Palavra”, foi “Unigénito” — não foi feito em determinada época, mas é eterno. Duas Pessoas representando um só Deus, não dois Deuses — o “Filho” Unigénito vindo do “Pai”, uma divindade essencial.
Este é o grande mistério, como poderíamos prever. Mas é o que Deus revelou acerca de si mesmo.
O apóstolo Paulo também conheceu a glória exclusiva pertencente a Cristo. Ele é o “Cristo, que é Deus acima de todos, bendito para sempre! Amém” (Rm 9.5). Todavia, “embora sendo Deus, [ele] não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo” (Fp 2.6,7; grifos do autor). Por conseguinte, “em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9; grifo do autor — v. 1.19). E nós, os cristãos, não estamos aguardando a chegada de um simples homem, mas “a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tt 2.13; grifos do autor — v. também 2Pe 1.1).
É por isso que o escritor de Hebreus diz, com intrepidez, que todos os anjos adoram a Cristo. Cristo não é o chefe dos anjos que adora a Deus. Ele é adorado por todos os anjos como Deus. “E ainda, quando Deus introduz o Primogênito no mundo, diz: ‘Todos os anjos de Deus o adorem’” (Hb 1.6). Porque ele é o Criador de tudo o que existe, e é o próprio Deus: “Mas a respeito do Filho, diz: ‘O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre [...]. No princípio, Senhor, firmaste os fundamentos da terra…’” (Hb 1.8,10). Portanto, o Pai testifica a divindade do Filho. Ele “é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa” (Hb 1.3).
Jesus Cristo é o Criador do Universo. Jesus Cristo é o Alfa e o Omega, o Primeiro e o Ultimo. Jesus Cristo nunca teve começo. Ele é a Realidade absoluta. Ele possui a honra inigualável e a glória singular de ser o primeiro, o que sempre existiu. Ele nunca veio a ser. Ele é o Unigénito eternamente. O Pai deleita-se eternamente no “resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser” (Hb 1.3), na Pessoa de seu Filho.
Ver e provar essa glória é o objetivo de nossa salvação. “Pai, quero que os que me deste estejam comigo onde eu estou e vejam a minha glória, a glória que me deste…” (Jo 17.24; grifo do autor). Regozijar-se nestas palavras para sempre é o objetivo de nosso ser que foi criado e de nosso ser que foi redimido.
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