Investigando o mistério da unção no sermão


No romance Paulo, de Walter Wangerin Jr., Barnabé descreve a grande pregação do apóstolo:
Ele tinha algo para lhes dizer, e uma ânsia tal de dizê-lo logo, dizê-lo rapidamente, que o tom moderado de sua voz se transformava em urgência. Assim, suas frases ficavam mais longas, e as palavras irrompiam de sua boca como urn bando de pássaros, e a fé do homem era um vento impetuoso no coração das pessoas, e algumas delas ficavam ofegantes em deleite, e essas eram as que subiam e voavam; mas outras ficaram ofendidas, e outras, com medo das paixões sagradas.
Eu imagino a unção assim.
Unção significa a consagração do Espírito Santo sobre um sermão, de modo que alguma coisa santa e poderosa que nenhum pregador pode gerar é acrescentada à mensagem, não importa quão magníficas sejam as habilidades do pregador. No centro de Pittsburg, dois rios, o Monongahela e o Allegheny, juntam-se no lugar chamado The Pointpara formar um novo rio, o imenso Ohio. Assim, penso que possamos imaginar a unção em ação — o sermão e o Espírito se encontrando para formar uma corrente espiritual, a voz de Jesus como o “som de águas impetuosas”.
Com freqüência me pedem que avalie gravações de sermões, usando um conjunto simples de perguntas. Uma pergunta com freqüência me desnorteia: “Você descreveria esse sermão como um sermão ungido?”. Com que se parece a unção? O que eu precisaria ouvir, exatamente? A unção pode ser discernida até em uma gravação ou é preciso estar presente para sentir a unção do Espírito?
Geralmente, consideramos a unção sendo a consagração do pregador à medida que o sermão flui de seus lábios. Certamente, Deus unge maravilhosa e misteriosamente os pregadores, mas eu tenho ficado intrigado com os dois outros “alvos” da unção do Espírito — o próprio processo da retórica batizada e a unção inerente à própria Palavra de Deus.
Retórica batizada
Igualamos a unção a um poder que eleva as palavras e as faz voar nas alturas, mas existe um poder assim na simples boa retórica. Considere o Discurso de Gettysburg, por exemplo, ou os discursos de Winston Churchill. Edward R. Murrow disse a respeito dele: “Ele mobilizou a língua inglesa e a enviou à batalha”. Certamente, esses discursos tinham em si algo equivalente à unção. Ou quando Martin Luther King Jr. exclamou na explanada em Washington: “Eu tenho um sonho”, isso era unção? Ele era pregador, afinal de contas. Mas isso também é ótima retórica.
A retórica clássica de Aristóteles identificava três ingredientes essenciais para grandes discursos: logos (o que nós dizemos), etos (o que nós somos) e patos (a paixão que levamos à tarefa). Mas é apenas quando o Espírito Santo é acrescentado à equação que temos unção. Quando essas qualidades são combinadas em um pregador piedoso e apaixonado, a ótima retórica é beijada pela unção. Kent Hughes, no prefácio de seu comentário das epístolas pastorais, diz que essas três coisas, em santa combinação, de fato são o que fazem o “Espírito Santo encher as velas de alguém, dão a sensação de sua presença e a consciência de que está acontecendo algo entre os ouvintes”.
O Espírito de Deus certamente “encheu as velas” de sermões pobres e pregadores atrapalhados de tempos em tempos, mas para que haja regularidade, quando o logos, o etos e o patos são batizados em Cristo, disso resulta unção. Quando tanto o sermão como o pregador estão cuidadosamente preparados, o Espírito Santo está propenso a derramar o seu fogo.
Parece-me que na Bíblia a mensagem é tão ungida por Deus quanto o mensageiro. A unção parece habitar em mensagens dadas por Deus, como o fogo habita na lava. O fogo está na mensagem, e o aviso ao mensageiro é não deixá-lo esfriar. A unção é mais alçada e entregue do que derramada.
Aqui estão quatro exemplos bíblicos de como perceber a unção na mensagem.
O ponto de virada
Quando tudo depende de para onde o povo de Deus deve ir em seguida, a mensagem de Deus tem uma intensidade ardente. O povo deve ter estremecido quando ouviu Moisés reduzindo suas chances a isto: “Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida” (Dt 30.19). Ou quando Josué, no final de sua carreira, clamou: “Escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram [...]. Mas, eu e a minha família serviremos ao senhor” (Js 24.15). Essas palavras têm unção; nós trememos diante delas ainda hoje.
Há o clichê na pregação de que todo sermão deve chamar para algum tipo de resposta, mas, sem dúvida, há aqueles domingos, aquelas mensagens que são pontos de virada para uma congregação. A frente deles, “duas estradas separam-se em uma floresta amarela” e fará toda diferença qual a congregação escolhe. Deus pode trovejar ou sussurrar a sua mensagem, mas seu Espírito é derramado em súplicas e desafios em tais domingos.
Você pode ter certeza de uma coisa: Você terá unção quando falar ao povo de Deus com as palavras de Jeremias: “Ponham-se nas encruzilhadas e olhem” (Jr 6.16).
O pregador purificado
O etos de um pregador requer piedade. Todo pregador deve chegar ao púlpito com o coração testado por Deus e alvejado pelo sangue. Mas há vezes em que o pregador tem uma experiência parecida com a de Isaías, quando parece que uma brasa incandescente da mão de um anjo cauterizou sua língua. O próprio pregador solitário ouviu uma mensagem cheia de unção, toda para ele, que esterilizou sua cabeça e seu coração. Assim, quando ele se levanta para pregar — não importa o texto que tem diante de si — ele, de forma intensa, quase sopra fogo do seu próprio coração em chamas.
O pregador orou: “Pega o que eu te ofereço, oh Senhor, e me ensina a dar tudo a eles. Sopra por meio da chama acesa dentro de mim, oh Deus, e coloca em minha língua tua brasa viva”.
Ele é o homem cujo coração foi quebrantado até que “todas as coisas que me encantam mais” foram lançadas fora e ele espera para falar de uma santa profundidade, tendo, pela primeira vez, grande espaço para Deus. Ela é a oradora cujos olhos, de alguma forma, naquela semana viram a desesperança indisfarçável dos perdidos e ela já não suporta o silêncio. Ele, de alguma forma, viu o Senhor, alto e exaltado, até que seus joelhos enfraqueceram, e sua língua foi atada. Contudo, quando ele prega — na verdade, quase ofegante — o sermão arde em óleo santo.
Pregando a Cristo
Todo sermão deve pregar a Cristo, é claro. Afinal de contas, que tempo temos para temas insignificantes e para atalhos? Mas há aqueles momentos em que a glória de Cristo, a consumação extraordinária do Filho de Deus, pega fogo de forma espontânea no pregador.
Essa explosão santa normalmente resulta da longa contemplação do Salvador. Fitamos, por longas horas, alguma obra-prima bíblica como Isaías 53 — “o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós” (Is 53.6). Ou andamos em volta de Filipenses 2 como um grande monumento: “Não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se” (Fp 2.6). Ou alimentamos nossa extasiada imaginação com as imagens do Apocalipse — “seus olhos são como chamas de fogo, e em sua cabeça há muitas coroas e um nome que só ele conhece e ninguém mais” (Ap 19.12). E começamos a arder com alguma poesia interior, alguma letra que sinceramente salta de nossos lábios no domingo. Em tais momentos, outra citação não faria isso, nem outro versículo. Podemos até falar sem rimas, mas nos tornamos poetas mesmo assim.
Há momentos também em que a simples suficiência de Cristo quase nos deixa atônitos. As Escrituras quebram nossa casca e vemos com clareza digital que, sem Jesus, todo o resto é cinzas. Uma urgência vem sobre nós: “Você precisa, você precisa! — confiar em Cristo”. E suplicamos como se a vida deles dependesse disso. Os ternos e sorrisos nos bancos da igreja desvanecem perante nossos olhos e vemos, em vez disso, prisioneiros através de suas grades; vemos as faces afundadas dos famintos; vemos a palidez dos mortos, bem ali diante de nós onde momentos antes sentavam pessoas comuns, e precisamos lhes dar Jesus! Elas precisam ser redimidas!
Dave Hansen escreveu em Leadership [Liderança] (inverno de 1997) a respeito do sofrimento de seu mentor de ministério e amigo, Bob Cahill. O pastor Cahill contou a Dave: “Desde meu câncer, prego como um homem morto para homens mortos. Quando olho para a congregação, vejo pessoas cuja vida está chegando ao fim e que precisam de Cristo. Você não pode imaginar o que isso faz com sua percepção de unção”.
Pregue a palavra!
Em 2Timóteo, Paulo não estimula o pastor Timóteo a buscar unção, mas ele diz: “Toda a Escritura é inspirada por Deus [...]. pregue a palavra” ! (2Tm 3.16; 4.2). A unção já está sobre as Escrituras. A Bíblia já está embebida de óleo santo. Quando eu prego, amo aqueles momentos inexplicáveis em que me encontro flutuando, quando a Palavra é como mel e fogo para mim. Mas o que aprendi da última admoestação moral de Paulo a Timóteo é acreditar que a unção está sempre nas Escrituras mesmo quando minhas palavras parecem rudimentares ou comuns.
Quando nos dedicamos às Escrituras “para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” (2Tm 3.16), a unção está conosco. Quando mostramos como as Escrituras tornam alguém “sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus” (3.15), isso é pregação ungida. Quando exortamos “com toda a paciência e doutrina” (4.2), temos a própria bênção de Deus. Aquela palavra, enquanto somos fiéis a ela, é “viva e eficaz” (Hb 4.12).
Contei a um pregador experiente que eu estava refletindo sobre unção. “E difícil explicar”, disse ele, “mas eu sei quando a tenho”. Sei o que ele quer dizer, mas não tenho certeza se ele está certo. Se ele quer dizer: “Posso sentir a unção quando ela vem sobre mim, e minhas palavras se transformam em martelos, relâmpago ou remédio”, bem, não tenho certeza de que sempre podemos saber. As vezes, a unção é simplesmente recebida pela fé, sem sentirmos o vento ou o calor. Vamos para casa domingo depois do culto humilhados e desapontados com o fato de que aparentemente nada aconteceu. Mas quando, com o coração puro, um pregador cristão proclama as Escrituras ou proclama Cristo ou chama para o arrependimento e santidade, suas palavras certamente são ungidas.
Dessa forma, qualquer proclamação das Escrituras contém unção? Uma preleção tediosa, porém verdadeira, um sermão plagiado ou um pregador insincero da Bíblia tem a unção do Espírito? Sim, penso assim, mas de forma um tanto vaga, fria. E um fogo coberto, uma brasa que mal fumega. O Espírito foi sufocado. Deus é conhecido por usar sua palavra mesmo em casos assim para tocar uma vida. A Palavra anunciada com verdade sempre tem unção, mas quando o pregador se esquivou do óleo do Espírito, até a Palavra do Todo-Poderoso é encoberta e silenciada. E um tesouro em que não se acredita facilmente porque está nas mãos de um mercenário.
Não fique no meio do caminho
Preciso admitir que a unção nem sempre teve uma conotação totalmente positiva para mim. E uma palavra que, de alguma forma, em meu passado ficou pendurada em um banner afixado à parede por trás de um pregador todo suado, esmurrando o púlpito, tomado de um delírio de querer condenar todo mundo. Ele é o pregador de quem guardo rancor — por não se preparar bem, por abusar da emoção e da culpa, por chorar facilmente, por achar que há algo superior em ser um pregador rudimentar. Ele dá à unção uma péssima conotação: untuoso.
Mas quando reiteramos fielmente as Escrituras, quando nossa exposição exala o que o Senhor soprou nas Escrituras, quando nosso coração se encanta com as verdades das Escrituras e nosso caráter é depurado pelo seu calor, aí há unção.

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