Em duas ocasiões (Gn 12.10-20; 20.1-18), Abraão apresentou sua esposa Sara como sua irmã, a fim de salvar a própria pele. A primeira vez ele assim procedeu quando a fome afligia Canaã de modo tão severo que ele achou necessário mudar-se para o Egito a fim de sobreviver (Gn 12.10). Mas, ao aproximar-se daquela nação pagã e corrupta, percebeu que estaria à mercê de uma sociedade que não titubearia em assassiná-lo a fim de conquistar sua bela esposa: o rei a levaria para seu harém. Abraão achou que os egípcios o matariam, caso soubessem que era casado com aquela formosa mulher. Por isso, ele persuadiu Sara a mentir com ele, achando que esse era o único jeito de ser poupado. Pode-se compreender bem que Sara agiu dessa forma premida pelas circunstâncias e por seu marido. No entanto, foi um pecado que ambos cometeram, o qual lhes furtou a possibilidade de testemunhar a verdade de Deus perante a sociedade idólatra do Egito.
Os agentes do faraó agiram da forma que Abraão havia previsto; levaram Sara perante o rei acreditando que ela seria um enriquecimento extraordinário do harém real (Sara ainda era bonita, embora tivesse bastante idade!). Mas Abraão ficou grandemente constrangido porque o faraó lhe deu muitas riquezas — na forma de servos, gado, prata e ouro (Gn 12.16; 13.2). Mas, até mesmo depois de o rei ser derrubado por uma doença repentina, tão logo Sara penetrou em seu palácio, e de ser levado a inquirir de seus feiticeiros as razões de sua aflição, foi ele impedido de vingar-se de Abraão pelo fato de este tê-lo enganado. É possível que o faraó tenha entendido o constrangimento enfrentado pelo seu hóspede: percebeu que o patriarca temera pela sua vida, pois seria morto por causa de sua esposa. O próprio faraó sentiu-se mal pelo fato de quase ter se envolvido em pecado de adultério — o que era severamente proibido até pela religião egípcia (cf. Book of the dead, cap. 125, sec. b19, em Pritchard, anet, p. 35, em que o falecido precisa declarar que jamais cometeu adultério). O faraó estava maravilhado diante do poder do Deus de Abraão, que fora capaz de golpeá-lo com tanta rapidez de tal modo que nem sequer conseguira levar Sara para sua cama, pois caíra mortalmente enfermo. Por essas razões, o rei permitiu que o patriarca saísse do Egito com todas as riquezas fabulosas que havia concedido a ele, como guardador de Sara.
Parece-nos claríssimo que o relato do fracasso de Abraão é uma alusão honesta à falta de fé que ele manifestara no desenrolar de todo o episódio. Houvesse ele acreditado que Iavé não poderia protegê-lo com honra e dignidade se ele descesse ao Egito, jamais teria ido a esse país. Pelo seu mau procedimento, ele trouxe desonra sobre si mesmo e à causa que representava e desacreditou a si próprio diante dos padrões de moralidade egípcia. Quanto ao seu enriquecimento por meio da generosidade do faraó, foi num sentido muito bem definido pelo qual o rei estava sob a obrigação de indenizá-lo pelo constrangimento iníquo que sua sociedade corrupta impunha sobre os estrangeiros que visitavam a terra do Egito. Quando o faraó descobriu a verdade, admitiu que Abraão agira com lógica ao mentir, pois tentava livrar-se de um perigo mortal. Por isso, dificilmente diríamos que Deus é o responsável pelo enriquecimento do patriarca. Foi obra do próprio rei, que não viu razão para exigir a devolução das dádivas, mesmo depois de descobrir que Abraão lhe mentira. Ele conservou em seu poder as possessões recebidas, ao regressar a Canaã, a terra que Deus lhe havia prometido. Pode ser que aqueles anos subseqüentes de agonia, de demora torturante (até estar ele com cem anos de idade), em parte se deveram ao seu fracasso e falta de fé em Deus, no poder protetor do Senhor, tanto no Egito quanto (mais tarde) em Gerar.
Gênesis 20 nos diz como Abraão bem depressa caiu no mesmo subterfúgio em Gerar, quando de novo percebeu que sua segurança estava em perigo por causa de sua mulher. Como ele mais tarde explicaria a Abimeleque, rei de Gerar, “Eu disse a mim mesmo: Certamente ninguém teme a Deus neste lugar, e irão matar-me por causa da minha mulher” (v. 11). E prosseguiu, afirmando que de fato Sara era sua meia-irmã (v. 12), mas fora-lhe dada por esposa, e com ela vivia. De novo Abraão fracassou ao revelar sua desconfiança no poder de Deus para preservá-lo do perigo mortal, deixando de honrar ao Senhor perante os olhos de um mundo incrédulo. Ainda que recebesse mil siclos de prata à guisa de indenização pelo fato de Abimeleque haver levado Sara para seu palácio,
Abraão teve de sair da terra coberto de desonra. De novo devemos observar que esse relato não o exonera de seu pecado, tal como não o livrou a aventura semelhante no Egito. Ele saiu de ambos os fracassos cheio de desonra e vergonha, tendo anulado sua boa influência sobre os filisteus, assim como no caso dos egípcios.
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