A alegria indestrutível


Se você for resgatado por um salva-vidas das águas turbulentas do Oceano Atlântico, não vai querer saber se ele se sente ou não triste. Quando estiver abraçando sua família na praia, não vai se preocupar com a saúde mental daquele que o salvou de um afoga­mento. Mas com a salvação que nos é concedida por Jesus, as coi­sas são bem diferentes. Jesus não nos salva para nossa família, mas para ele mesmo. E se ele estiver entristecido, nossa salvação não nos trará alegria. Não será para nós uma grande salvação.

O próprio Jesus — e tudo o que Deus representa para nós por meio dele — é nossa grande recompensa, e ponto final. “Eu sou o pão da vida…”                           Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (Jo 6.35; 7.37). A salvação não significa apenas perdão de peca­dos, mas, acima de tudo, comunhão com Jesus (I Co 1.9). O per­dão tira todos os empecilhos do caminho para que isso possa acontecer. Se essa comunhão não for plenamente prazerosa, não haverá grande salvação. Se Cristo estiver triste, ou até mesmo indiferente, a eternidade não passará de um longo, longo suspiro.
Mas a glória e a graça de Jesus nos mostram que ele é, e sem­pre será, uma alegria indestrutível. Eu digo glória de Jesus porque a tristeza não é gloriosa. E digo graça de Jesus porque a melhor coisa que ele tem para nos dar é a sua alegria. “Tenho lhes dito estas palavras para que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa” (Jo 15.11 — v. também 17.13; grifo do autor). Jesus não seria totalmente misericordioso se simplesmen­te aumentasse minha alegria até o seu ponto máximo e, depois, deixasse de conservar dentro de mim essa alegria. Minha capaci­dade de me manter alegre é muito limitada. Assim, além de se oferecer para ser o “abjeto” divino de minha alegria, Cristo derra­ma sua própria alegria em meu ser, para que eu possa alegrar-me nele com a verdadeira alegria de Deus. Isto é glória, e isto é graça.
Não é glorioso ser triste. E Cristo nunca foi triste. Desde a eternidade, ele tem sido o espelho da infinita jovialidade de Deus. A Sabedoria de Deus proferiu estas palavras em Provérbios 8.30: “… eu estava ao seu lado, e era o seu arquiteto; dia a dia eu era o seu prazer e me alegrava continuamente com a sua presença”. O Cristo eterno, a alegria de Deus e igualmente autor da cria­ção, estava sempre se alegrando na presença de Deus. Essa afir­mação se repete duas vezes no Novo Testamento.
Em Hebreus 1.8,9, Deus diz ao Filho, não aos anjos, estas pa­lavras maravilhosas: “O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre. [...]. Amas a justiça e odeias a iniqüidade; por isso Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros, ungindo- te com óleo de alegria” (grifo do autor). Jesus Cristo é o ser mais feliz do Universo. Sua alegria é maior que a alegria de todos os anjos do céu. Ele espelha perfeitamente o júbilo infinito, santo e incontido de seu Pai.
Outra vez, em Atos 2.25-31, Pedro interpreta o salmo 16 para referir-se a Cristo: ‘“Eu sempre via o Senhor diante de mim. Por­que ele está à minha direita, não serei abalado. Por isso o meu’ coração está alegre e a minha língua exulta [...] porque tu não me abandonarás no sepulcro, nem permitirás que o teu Santo sofra decomposição. [...] e me encherás de alegria na tua presença’” (grifos do autor). O Cristo ressurreto afastará as sombras da mor­te e se alegrará com a verdadeira alegria de Deus. A glória de Cristo é sua alegria infinita, eterna e indestrutível na presença de Deus.
Mas se não é glorioso ser triste, também não é glorioso ser indiferente. A alegria despreocupada de um salão de baile e a alegria irreprimível em um gulag russo não são iguais. Uma é ba­nal, a outra é triunfante. Uma é indiferente, a outra é gloriosa. Há um sorriso artificial que nunca soube o que significa sofri­mento. E isso não é digno de um bom pastor ou de um grande Salvador. E Cristo é um grande Salvador.
Por conseguinte, esse homem de alegria indestrutível foi “um homem de dores e experimentado no sofrimento” (Is 53.3). “… A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem comigo” (Mt 26.38). Esse “grande sumo sacerdote” é capaz de compadecer-se de nossa fraqueza, por­que sofreu todo tipo de provação como um homem igual a nós (Hb 4-14,15). Ele chorou com os que choravam (Jo 11.35) e ale- grou-se com os que se alegravam (Lc 10.17,21). Ele teve fome (Mt 4.2), sentiu cansaço (Jo 4.6), foi abandonado (Mt 26.56), traído (Mt 26.45), açoitado (Mt 27.26), sofreu zombaria (Mt 27.31) e foi crucificado (Mt 27.35).
Alegria incontida não significa que existe apenas alegria. Será, então, que Cristo teve os seus sentimentos divididos entre a ale­gria e a tristeza? Poderia uma alma infinitamente gloriosa ser ator­mentada? Atormentada, sim, mas não dividida e desunida. Cristo foi complexo, mas não foi perturbado. Havia notas divergentes na música de sua alma, mas o resultado foi uma sinfonia. A com­plexa estratégia de guerra de um general pode dar ao inimigo um triunfo temporário, mas a grande vitória final será do general. Não existe nenhum sinal de perturbação na mente do general, a não ser na imaginação daqueles que estão vendo apenas uma parte do campo de batalha. Mas a glória é do general. O Oceano Pacífico pode estar sendo atormentado por tempestades e venda- vais, mas, visto de cima, a uma altura de 160 quilômetros, nota- se apenas uma imensa quantidade de águas profundas, calmas e gloriosas.
Nos momentos de agonia no Getsêmani e no Gólgota, Jesus foi sustentado por uma alegria indestrutível. “… Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus” (Hb 12.2; grifo do au­tor). E qual foi essa alegria que o sustentou. Foi a alegria de receber a adoração daqueles por quem ele morreu, a fim de que se alegrassem em Deus. O Bom Pastor alegra-se quando encon­tra uma ovelha perdida (Mt 18.13). Imagine como ele se alegra quando encontra exércitos incontáveis de almas resgatadas!
Será que existe aqui uma lição sobre a forma pela qual deve­mos sofrer? Você já notou que não devemos apenas imitar o sofrimento do Senhor, mas também a alegria do Senhor no sofrimento? Paulo disse aos tessalonicenses: “De fato, vocês se tornaram [...] imitadores [...] do Senhor, pois, apesar de muito sofrimento, receberam a palavra com alegria que vem do Espírito Santo” (l Ts 1.6; grifo do autor). Foi a alegria do Senhor na aflição que alimentou aquela jovem igreja.
Este é o chamado para nós em nossos dias. Será que aceitare­mos sofrer pela causa de Cristo? Não com tristeza, mas simples­mente sofrendo. Será que atenderemos ao chamado registrado em Hebreus 13.13: “Portanto, saiamos até ele, fora do acampa­mento, suportando a desonra que ele suportou”? A resposta está nesta questão: A cidade de Deus é mais desejável para nós que a cidade do homem? Será que responderemos: “Não temos aqui nenhuma cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” (Hb 13.14)? Ou nos apegaremos aos tesouros transitórios do Egi­to (Hb 11.25,26)?
Para aqueles que têm provado a alegria de Jesus, não existe nada mais convincente do que a esperança inigualável de ouvir sua palavra final: “Muito bem, servo bom e fiel! [...] Venha e participe da alegria do seu senhor!” (Mt 25.21; grifo do autor). A cidade de Deus é uma cidade de alegria. E essa alegria é a alegria indestrutível de Cristo.

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