Não se Comprometer em Tempos Difíceis


Há uma urgência na ordem de Paulo a Timóteo: “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar- se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos” (2 Tm 4.3). Esta é uma profecia que nos faz lembrar aquelas encontradas em 2 Timóteo 3.1 (“Sabe, porém, isto: nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis”) e 1 Timóteo 4.1 (“Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé”). Este é, portanto, o terceiro alerta profético de Paulo a Timóteo com relação aos tempos difíceis por vir. Observe a progressão: o primeiro alerta disse que chegaria uma ocasião em que as pessoas se desviariam da fé. O segundo alertou Timóteo acerca de dias perigosos que sobreviriam à igreja. Agora, o terceiro sugere que viria um tempo em que pessoas dentro da própria igreja não suportariam ouvir a sã doutrina, mas, em vez disso, desejariam ter os seus ouvidos coçados.

Pregação destemida é sempre mais necessária em épocas caracterizadas por tais perigos. Quando as pessoas não estão dispostas a tolerar a verdade, é nesta ocasião que os pregadores corajosos e ousados precisam anunciá-la com mais firmeza.
Mas, por que as pessoas não suportam ouvir a sã doutrina? É porque amam o pecado. A pregação da sã doutrina, como já vimos, confronta e repreende o pecado; e as pessoas apegadas a um estilo de vida pecaminoso não suportarão esse tipo de pregação. Querem satisfazer a coceira de seus ouvidos (2 Tm 4.3).
Paulo também emprega a expressão “sã doutrina” em 1 Timóteo 1. Nos versículos 9 e 10 daquele capítulo, ele fala de “transgressores e rebeldes, irreverentes e pecadores, ímpios e profanos, parricidas e matricidas, homicidas, impuros, sodomitas, raptores de homens, mentirosos, perjuros, e … tudo quanto se opõe à sã doutrina”. Uma sociedade repleta de, e influenciada por, mentirosos, perjuros,assassinos e homossexuais jamais será tolerante para com a sã doutrina.
Note que Paulo não está sugerindo que o caminho para alcançarmos tal sociedade é o abrandamento da mensagem, de forma que as pessoas sintam-se confortáveis ao ouvi-la. E exatamente o contrário. Satisfazer à coceira nos ouvidos dessas pessoas é algo abominável. Paulo exorta a Timóteo, a fím de que ele esteja pronto a sofrer por causa da verdade e continue a pregar fielmente a Palavra. Essa é a única maneira pela qual pessoas intolerantes podem ser expostas à verdade, pois somente ela é capaz de amolecer seus corações.
Incidental mente, a pergunta interpretativa suscitada nessa passagem depende de quem a expressão “não suportarão” está se referindo em 2 Timóteo 4.3. A quem se refere? Ao mundo ou à igreja? É claro que inclui o mundo — pessoas não-regeneradas que raramente estão dispostas a ouvir a sã doutrina. Aqui, entretanto, Paulo está se referindo às pessoas a quem Timóteo pregava. O texto parece estar se referindo às pessoas da igreja. A passagem sugere que haveria um tempo em que os crentes professos de Éfeso não suportariam a sã doutrina.
Não é exatamente esta a situação da igreja na sociedade hoje? Aliás, é precisamente isso que os peritos em marketing estão mostrando aos líderes da igreja. O fundamento da filosofia deles consiste no fato de que o povo não quer ouvir a verdade pregada; eles querem ser entretidos. A estratégia do marketing diz; “Dê às pessoas o que elas querem”. As Escrituras ensinam o contrário.
Há milhares de igrejas, ao redor do mundo, que não querem ouvir a sã doutrina. Não aguentariam, por duas semanas, um ensino bíblico firme que refutasse seus erros doutrinários, que confrontasse o seu pecado, que lhes trouxesse convicção e as exortasse a obedecer a verdade. Não desejam ouvir pregação sadia. Por quê? Porque os que se encontram nas igrejas desejam possuir a Deus sem abrir mão de seu estilo de vida pecaminoso; por isso não toleram que alguém lhes diga o que a Palavra de Deus declara a esse respeito.
Então, o que desejam eles ouvir? “Cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos” (2Tm 4.3). Ironicamente, eles procuram mestres. Aliás, cercam-se de mestres, mas não aqueles que ensinam a sã doutrina. Escolhem mestres que lhes ensinem o que desejam ouvir, ou seja, aquilo que satisfaz acoceira de seus ouvidos. Desejam aquilo que os faz sentirem-se bem consigo mesmos. Pregadores que os ofendem, esses são rejeitados.Ajuntam ao redor de si uma porção de professores que satisfazem seus apetites insaciáveis e egoístas. O pregador que traz a mensagem que mais necessitam ouvir é aquele que eles menos gostam de ouvir.
Infelizmente, pregadores com mensagens que satisfazem as coceirasnos ouvidos são abundantes em nossos dias. “Em épocas de fé instável, de ceticismo e de mera especulação curiosa em relação aos aspectos espirituais, mestres de todo tipo proliferam, tal como as moscas da praga no Egito. A demanda gera o suprimento. Os ouvintes convidam e moldam os seus próprios pregadores. Se as pessoas desejam um bezerro para adorar, o ministro ‘que fabrica bezerros’ logo é encontrado”.10
Esta avidez por mensagens que agradem a coceira nos ouvidos conduz a um final terrível. O versículo 4 diz que, por fim, essas pessoas “se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas”. Tornam-se vítimas de sua própria recusa em ouvir a verdade. A frase “recusar-se-ão a dar ouvidos” está na voz ativa. Isto significa que as pessoas deliberadamente escolhem essa atitude. A frase “entregando-se às fábulas” está na voz passiva, descrevendo o que acontece a elas. Tendo dado as costas à verdade, tomam-se instrumentos de Satanás. A ausência de luz são as trevas.
Isso está acontecendo na igreja contemporânea. O evangelicalismo perdeu sua tolerância para com a pregação confrontadora. A esta altura, a igreja flerta com os mais graves erros doutrinários. Os cristãos buscam imprudentemente a revelação extra-bíblica na forma de profecias e sonhos. Os pregadores negam ou ignoram a realidade do inferno. O evangelho moderno promete o céu sem uma vida de santidade. As igrejas ignoram o ensinamento bíblico acerca do papel da mulher, do homossexualismo e de outras questões sensíveis. Os recursos humanos substituíram a mensagem divina. Isso tudo compromete a doutrina seriamente. Se a igreja não se arrepender e retomar ao caminho de ascendência (como diria Spurgeon), estes e outros erros semelhantes se tomarão epidêmicos.
Observe novamente a frase-chave no versículo 3: “Como que sentindo coceira nos ouvidos”. Por que não suportam a sã doutrina? Por que cercam-se de mestres e voltam as costas para a verdade? Porque no seu íntimo o que pretendem é satisfazer a coceira de seus ouvidos. Não querem ser confrontados. Não querem sentir convicção de pecado. Desejam ser entretidos; querem pregações que produzam sentimentos agradáveis. Desejam sentir-se bem. Querem satisfazer acoceira dos seus ouvidos com anedotas, humor, psicologia, palestras motivacionais, estímulos, pensamento positivo, auto- satisfação e sermões que fortalecem o ego. Correção, repreensão e exortação bíblicas são inaceitáveis.
Mas a verdade de Deus não faz cócegas em nossos ouvidos; elaesbofeteia os nossos ouvidos. Ela os queima. Primeiramente, ela corrige, repreende e traz convicção; depois, ela exorta e encoraja. Os que pregam a Palavra precisam ter o cuidado de manter esse equilíbrio.
Em João 6, após Jesus ter pregado um sermão bastante severo, a Bíblia nos diz: “À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele” (v. 66). Enquanto as multidões se retiravam, nosso Senhor voltou-se a seus discípulos e perguntou: “Porventura, quereis também vós outros retirar-vos?” (v. 67). A resposta de Pedro, em nome dos demais apóstolos, é significativa: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (v. 68). Esta é a resposta correta. Revela a diferença entre os verdadeiros discípulos e os demais: a fome pela Palavra. Jesus afirmou: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos” (Jo 8.31). Pessoas que buscam ser alimentadas ou entretidas, curiosos e gente que apenas segue as multidões não são, de forma alguma, discípulos verdadeiros. Os que amam a Palavra são os verdadeiros seguidores de Cristo. Esses não desejarão ouvir pregadores que cocem seus ouvidos.

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